sexta-feira, 3 de junho de 2011

“NATO está a matar dezenas de inocentes”, diz bispo de Tripoli

O bispo de Tripoli, Monsenhor Martinelli, voltou ontem a criticar duramente a actuação da NATO e os bombardeamentos na capital do país.

“As bombas estão a tornar-se o nosso calvário”, disse o Bispo. “Para destruír Khadafi estão a matar dezenas de pessoas inocentes”.

As palavras de Monsenhor Martinelli surgiram depois de a NATO ter atacado alguns edifícios nos subúrbios de Tripoli, afectando também edifícios civis.

O bispo, que cuida de uma comunidade constituída essencialmente por imigrantes, lamentou que os responsáveis internacionais não procurem outras vias para solucionar o problema da Líbia: “A NATO mantém-se fiel às suas bombas, porque é que não se tentam outros caminhos? Parece que ninguém quer uma solução pacífica para este conflito”.

A situação deixa o bispo, de origem italiana, preocupado com o que virá: “O futuro é incerto”, afirmou, citado pela AsiaNews, “Só nos resta a fé, para tentar compreender o mistério deste sofrimento”.

Situação na Líbia deixa cristãos muito apreensivos

A situação deste país do Norte de África tem vindo a ser particularmente acompanhada em Itália, a antiga potencia colonial.

“Em nenhuma das crises humanitários nem nos conflitos vividos nos últimos 20 anos – afirmou Vittorio Nozza, director da Caritas Italiana – assistimos a uma violência tão profunda.” “Também a surpresa dos países ocidentais – prossegue Nozza – a respeito da rápida evolução destas crises é sinal de uma preocupação difundida que partilhamos e sobre a qual pedimos a máxima atenção.”

Para este responsável da Caritas italiana, a recente e crescente onda de revolta que tem vindo a assolar o Norte de África não pode ser apenas explicada pela pobreza mas, isso sim, pela negação da liberdade política, de imprensa e religiosa.
“Quando um povo é oprimido durante muito tempo por um regime que não respeita os direitos humanos – afirma o presidente da Conferência Episcopal Italiana, cardeal Angelo Bagnasco –, isso cedo ou tarde rebenta.”

Por sua vez, o Bispo de Tripoli, Giovanni Martinelli, vê na revolta o desejo das novas gerações em terem a oportunidade de construírem uma vida melhor. “As pessoas – afirmou o prelado – pedem mais democracia. Há um salto de qualidade da população com o desejo dos jovens de desfrutar dos bens do país.”

Entretanto, no país reina o caos e as instituições estão paralisadas. O centro de atendimento da Caritas, por exemplo, que fica a 10km de Tripoli, está encerrado.
“Estamos trancados em casa, como nos indicaram, e não podemos ir ao centro, onde estão os imigrantes que atendemos”, conta a Irmã Sherly Joseph, uma das três religiosas franciscanas que trabalham no centro de apoio.

Num jornal local, Alan Arcebuche – director da Caritas da Líbia – explicou que para os trabalhadores cristãos estrangeiros não regularizados a situação é muito pior que a de outros cristãos “regularizados”, pois estes podem contar com as embaixadas de seus países. Os irregulares, em contrapartida, “são sobretudo africanos subsaarianos, barrados na Líbia na tentativa de chegarem à Europa após o fecho das rotas mediterrâneas”. A sua situação é muito difícil porque “não conseguem entrar em contacto com os seus governos, os quais, por outro lado, não estão a fazer nada para ajudá-los”.

AIS

Vigário Apostólico da Líbia condena bombardeamentos

Mais respeitada universidade do mundo islâmico também é contra acção militar ocidental.

O Vigário Apostólico de Tripoli, bispo Giovanni Martinelli, condenou ontem a acção militar de países ocidentais contra a Líbia, e sugeriu que se recorra à União Africana para encontrar uma solução pacífica para o problema.

“Tenho confiança na sabedoria africana para resolver a crise. Os europeus enganam-se ao pensar que resolvem esta situação à bomba. Precisamos de dar espaço à mediação pela União Africana”, afirmou o bispo à agência Fides.

O monsenhor Martinelli, que reside na Líbia e é responsável pelo cuidado da minúscula comunidade católica daquele país, negou temer pela sua própria segurança: “Não tenho medo das bombas, mas sim da incapacidade de se tentar dialogar e encontrar uma solução pacífica”, explicou.

Com o país mergulhado numa profunda crise, a Igreja Católica tem sido procurada por muitos imigrantes, sobretudo africanos, que pedem ajuda para chegar à Europa, explica o prelado. “Mas esta não é a nossa função. Tentamos persuadi-los a ir para a Tunísia, onde serão ajudados por organizações internacionais. Aqui em Tripoli só podemos ajudar nos casos mais complicados”, explica Martinelli.

Al-Azhar apoia rebeldes mas condena ocidentais

O bispo católico não está só nas suas críticas. Do Egipto, a Universidade Al-Azhar, a maior autoridade islâmica do país e o centro de ensino mais respeitado do mundo muçulmano, também emitiu uma condenação.

Considerando os bombardeamentos uma “agressão” contra a Líbia, os representantes da Al-Azhar avisam o Ocidente para não cometer os mesmos erros do Iraque, “dividindo a Líbia e destruindo a sua riqueza natural e humana”.

Contudo, a universidade também reservou palavras duras para os líderes de países árabes que mantêm os seus cidadãos oprimidos durante décadas: “Devem abandonar os seus lugares. É o mínimo que devem fazer em resposta ao seu povo, que os tem aturado com tanta paciência durante anos.”

Filipe d'Avillez