As vítimas são sempre as mulheres, a maioria meninas. Abusos, casamentos forçados, castigos físicos e atá assassinatos ainda acontecem todos os dias, mesmo na Europa.
Continuação do artigo VÍTIMAS DE HONRA
«Os crimes de honra têm a ver com tradições antiquadas e com a violação dos direitos das mulheres», sintetiza Sibylle Schreiber. «Raparigas que nasceram e cresceram no Ocidente entram em conflito com os seus pais, que não nasceram nem foram educados no Ocidente.» Mas também têm a ver com a duplicidade de critérios face aos géneros –os rapazes turcos e curdos podem ter relações sexuais antes do casamento, mas contam encontrar noivas da sua cultura que permaneçam virgens até ao casamento.
E as mulheres vítimas de violência ou em risco de ser assassinadas em nome de uma qualquer honra podem não encontrar a devida protecção nos tribunais Sharia islâmicos, que estão a multiplicar-se pela Europa.
Só no Reino Unido, existem 85. À luz da lei inglesa, podem arbitrar assuntos civis quando ambas as partes concordam com tal arbitragem.
Apesar de o código civil da Sharia – baseado no Corão – abolir o matrimónio forçado, o testemunho de uma mulher, à luz da Sharia, vale metade do de um homem, e o seu contrato de casamento é celebrado entre o seu guardião (masculino) e o seu marido.
Se voltar a casar-se, perde a guarda dos filhos e não lhe é permitido casar com um não-muçulmano. Um homem pode ter quatro esposas, e todas as crianças com mais de 7 anos lhe pertencem, mesmo que tenha um historial de violência doméstica.
Uma batalha em três frentes
«Os crimes de honra têm a ver com tradições antiquadas e com a violação dos direitos das mulheres», sintetiza Sibylle Schreiber. «Raparigas que nasceram e cresceram no Ocidente entram em conflito com os seus pais, que não nasceram nem foram educados no Ocidente.» Mas também têm a ver com a duplicidade de critérios face aos géneros –os rapazes turcos e curdos podem ter relações sexuais antes do casamento, mas contam encontrar noivas da sua cultura que permaneçam virgens até ao casamento.
E as mulheres vítimas de violência ou em risco de ser assassinadas em nome de uma qualquer honra podem não encontrar a devida protecção nos tribunais Sharia islâmicos, que estão a multiplicar-se pela Europa.
Só no Reino Unido, existem 85. À luz da lei inglesa, podem arbitrar assuntos civis quando ambas as partes concordam com tal arbitragem.
Apesar de o código civil da Sharia – baseado no Corão – abolir o matrimónio forçado, o testemunho de uma mulher, à luz da Sharia, vale metade do de um homem, e o seu contrato de casamento é celebrado entre o seu guardião (masculino) e o seu marido.
Se voltar a casar-se, perde a guarda dos filhos e não lhe é permitido casar com um não-muçulmano. Um homem pode ter quatro esposas, e todas as crianças com mais de 7 anos lhe pertencem, mesmo que tenha um historial de violência doméstica.
Uma batalha em três frentes
A batalha contra os crimes de honra está a ser travada em três frentes: através da protecção, através da acusação e através da mudança de paradigma dentro das comunidades onde se verificam estes crimes.
A segurança é fundamental para as jovens em fuga, e estão a surgir abrigos em toda a Europa. O Papatya, em Berlim, é uma experiência pioneira de centro residencial seguro que surgiu em 1986 e que também oferece um serviço de aconselhamento por telefone e por e-mail. Garante protecção a cerca de 65 raparigas por ano.
«Entre 1996 e 2009, estimamos terem existido 88 mortes por honra na Alemanha», diz Eva, que dirige o centro, mas que não quer identificar-se pelo nome completo, já que sente um medo legítimo de que as famílias das vítimas possam descobrir onde mora e, assim, localizar o centro.
Uma grata utilizadora dos serviços do Papatya foi Hazal Ates. Ficou noiva aos 13 anos e foi forçada pela família a casar com um primo mais velho quando tinha 16, na Turquia. No casamento, sofria abusos sexuais e psicológicos diários. «Ele ria-se quando eu chorava e obrigava-me a cobrir-me toda quando saía.» Desesperadamente infeliz, Hazal planeou a fuga, mas não podia regressar para junto da família. «O meu pai tinha-me dito: “Ele é um bom marido para ti” – e que, se eu voltasse para casa, ele me matava.»
Entretanto, Hazal descobriu que estava grávida. «Fiquei desfeita. Não avistava nenhuma luz no fundo do túnel.» Aconselhada por uma professora, conseguiu refugiar-se na residência do Papatya, em Berlim, mas para dar à luz teve de ser levada ao hospital. Perdeu o bebé. «Não sei como, a família do meu marido descobriu em que hospital eu estava e começaram a ligar para lá. Acusaram-me de ter matado o bebé deles e ameaçaram matar-me.»
Hazal estava aterrorizada e convencida de que, se ficasse em Berlim, seria mesmo morta. Numa corrida contra o tempo, o abrigo Papatya organizou outro refúgio para Hazal noutra grande cidade alemã. Isto passou-se há dois anos, e, hoje, Hazal está a terminar a sua formação para se tornar vendedora.
Vestida à moda, já tem apartamento próprio e os seus olhos ostentam um brilho especial. Não revela sinais exteriores dos horrores que sofreu. «Agora, penso pela minha própria cabeça», rejubila. «A liberdade é uma coisa a que temos que nos habituar, mas tornei-me mais confiante, porque agora posso tomar as minhas próprias decisões.»
Abrigos e Casas de Apoio
Cerca de 70% das jovens que procuram o centro de apoio Papatya – algumas não passam dos 13 anos – começam por criar novas vidas após um período de semanas ou meses com a ajuda de uma equipa multirracial de assistentes sociais, psicólogas e uma especialista em educação.
E os outros 30%? «Algumas regressam a casa, porque vêm de famílias muito unidas e, por muito que as coisas sejam duras, não conseguem viver sem a família», explica Eva. «Outras ficam aterrorizadas com a possibilidade de as irmãs serem castigadas pelo facto de elas terem fugido. É necessária uma coragem tremenda para começar uma vida nova num sítio onde não se conhece ninguém e quando se foi proibida de aprender a viver de forma autónoma.»
E mesmo quando fogem, as famílias vão à procura delas – muitas vezes violando dados da Segurança Social ou registos de emprego – e convencem-nas a voltar com falsas histórias de que a mãe ou as irmãs estão gravemente doentes. Após anos de investigações falhadas e hesitantes, as polícias europeias começaram agora a reunir provas não apenas sobre os assassinos – normalmente, os mais novos da família, como Ayhan Sürücü, que recebem penas mais leves devido à pouca idade –, mas também sobre os conspiradores da família, que põem a faca ou a arma nas mãos do algoz.
Mudança de mentalidade
Em 2006, um júri em Copenhaga fez história ao condenar pela primeira vez nada mais nada menos do que seis membros de uma mesma família paquistanesa pela morte a tiro de Ghazala Khan, de 18 anos, dois dias depois de esta ter sido forçada a casar contra a sua vontade com um afegão.
Os políticos também começam agora a tomar consciência de que os crimes de honra existem e são um problema. Este ano, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa deve finalizar uma convenção que previne a violência contra mulheres e que inclui uma referência específica aos crimes de honra. «Temos que transmitir um sinal claro de que esses crimes não podem ter lugar nas sociedades democráticas», frisa José Mendes Bota, o português que preside à Comissão para a Igualdade de Oportunidades entre Homens e Mulheres. «Esta barbárie tem que ser erradicada.»
Os especialistas em crimes de honra acreditam que é necessário que sejam homens a pôr cobro a esta situação de opressão masculina sobre as mulheres, que tem uma tradição de séculos naquele tipo de sociedades patriarcais. Este é o mote central do Projecto Heróis, que está a ser desenvolvido no Bairro Berlinense de Neukölln, onde vive a maior percentagem de imigrantes árabes e turcos da cidade, mas que está a libertar-se da sua fama de gueto.
O Projecto Heróis treina jovens do sexo masculino para irem às escolas, às faculdades e aos centros de ocupação de tempos livres mostrar aos seus pares que há alternativas no que toca a direitos humanos, democracia, sexualidade, virgindade e igualdade de género. Actualmente, existem 22 Heróis. Um deles é Hero Deniz, de 21 anos, de ascendência turco-curda, mas nascido e criado em Neukölln.
«Quero provar aos jovens das culturas turcas e árabes, bem como de outras chamadas “culturas da honra”, que nós podemos ser diferentes daquilo que a maioria acha que nós somos», explica. Oito cidades alemãs, incluindo Hamburgo e Dusseldorf, estão a planear implementar o seu próprio Projecto Heróis.
Mas antes de encolher os ombros e pensar que os crimes de honra são problemas dos outros, é fundamental ter presente o aviso de Eduardo Grutzky, que dirige o Projecto SHIELDS, sediado em Estocolmo e que ajuda assistentes sociais e professores a falarem sobre os crimes de honra com jovens de todas as culturas. «Temos que mentalizar todos os estratos sociais de que este não é um problema dos imigrantes. É um problema nosso.»
Com reportagem adicional de: Martina Mach (Estugarda), Guillaume Tixier (Paris), Rhea Wessel (Kronberg, Alemanha).
Por Tim Bouquet www.seleccoes.pt
Já este ano foi lançado um documentário sobre o homicídio de Hatun Sürücü: Two Sides of the Moon: The Tragic Honor Killing of Hatun Sürücü (Os Dois Lados da Lua: O Trágico Assassínio de Hatun Sürücü, numa tradução livre). O filme alemão Die Fremde (A Estrangeira, em Portugal), baseado em parte na sua história, venceu o Prémio de Cinema LUX 2010, atribuído pelo Parlamento Europeu.
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