segunda-feira, 30 de maio de 2011

Vítimas da Honra

Milhares de mulheres por toda a Europa são obrigadas a casar e chegam a ser mortas em nome da honra da família. Há que acabar com estes crimes.

6 de Fevereiro de 2011, Oberlandgarten, Berlim. Uma multidão silenciosa de ramos de flores nas mãos junta-se num memorial erigido numa paragem de autocarros na zona de Tempelhof, na capital alemã, tal como acontece todos os anos desde há seis anos. Foi aqui que, a 7 de Fevereiro de 2005, Hatun Sürücü, uma jovem mãe de 23 anos, foi morta a tiro nesta avenida de plátanos despidos e de blocos de apartamentos anónimos.

O memorial de pedra tem gravado o nome de Hatun Sürücü – e homenageia «as outras vítimas da violência nesta cidade». Mas o assassínio de Hatun não foi um crime «normal»: foi um crime de honra.

Em nome da honra

As mortes e a violência em nome da honra acontecem quando raparigas (e por vezes também rapazes) são castigadas por violarem decisões familiares ou tradições culturais e tribais, em particular os casamentos forçados, e tornou-se um problema sério na Alemanha. No ano passado, a chanceler Angela Merkel declarou que a tentativa de construir uma sociedade integrada e multicultural se revelou um «fracasso absoluto».

E não é apenas a Alemanha que se debate com esta questão. Ao longo da última década, uma prática que era considerada tabu deixou de ser escondida e, pelo contrário, revelou-se endémica em muitos países europeus com grandes comunidades de imigrantes, como é o caso de França, Itália, Dinamarca, Bélgica, Holanda e Reino Unido.

Em 2009, um influente comité do Conselho da Europa fez saber num relatório que «nos últimos 20 anos os crimes de honra têm-se tornado cada vez mais comuns na Europa». As estatísticas certas são difíceis de determinar, porque muitas dessas mortes eram classificadas, até há pouco tempo, como suicídios ou homicídios «normais». Alguns especialistas falam em cerca de 100 000 homicídios em nome da honra.

O que torna os crimes de honra tão chocantes é o facto de serem tão premeditados como um assassínio. «Não pode ser explicado como um infeliz crime passional», salienta o advogado britânico Nazir Afzal, especialista em casos de crimes de honra. «A realidade é que uma família inteira, mães e irmãs incluídas, senta-se à volta de uma mesa e decide calmamente que uma filha ou uma esposa precisa de ser intimidada ou morta. Todos os pormenores são definidos: quem será o assassino, onde e como será morta e como é que se verão livres do cadáver.»
Em 2005, Hatun Sürücü, de 23 anos, pensava estar finalmente livre. Em 1999, fugira de um casamento a que tinha sido obrigada pela família, aos 16 anos, com um primo direito em Istambul – uma relação de que tinha um filho, Çan. Ao chegar a Berlim, mudara-se para uma «casa segura» para mães solteiras e algum tempo depois para um apartamento – a alguns minutos a pé do local onde seria morta – onde criava o filho.

De cabelos negros, bonita e dona de um sorriso largo e cativante, Hatun estava prestes a terminar o seu estágio como electricista. Tendo rejeitado o lenço, usava as roupas que queria, saía para dançar e ir ao cinema quando podia – coisas que as Europeias consideram normais e garantidas, mas que estavam fora dos limites do aceitável para a sua família curda sunita, devota e tradicionalista.

Hatun era uma de nove irmãos, sete dos quais nascidos na Alemanha. Os pais tinham vindo do Leste da Anatólia, na Turquia, no início dos anos 70, quando o pai, Keram, arranjara um trabalho como jardineiro.

Criara os filhos na cega observância religiosa, por isso qualquer contacto com Hatun fora cortado quando ela optou por um estilo de vida ocidental. Mas ela sentia que havia uma reaproximação à sua família. Tinha acabado de dar à mãe um banquinho de madeira que fizera nas aulas. Por isso, quando o irmão mais novo, Ayhan, de 18 anos, lhe bateu à porta, ficou contente. Conversaram na pequena cozinha do apartamento e ele mostrou-se satisfeito por ela ter um tapete de orações. Depois, pediu-lhe que o acompanhasse até à paragem de autocarros de Oberlandgarten.

De caminho, Hatun comprou um café e, de repente, Ayhan exigiu-lhe que «renunciasse ao pecado» e mudasse de estilo de vida se queria fazer as pazes com a família. Ao abandonar o marido, ter namorados e recusar-se a vestir as roupas conservadoras próprias das mulheres, Hatun tinha «manchado a honra da família», que assentava, dizia ele, «especialmente na integridade sexual da mulher».

«Saio com quem quiser», insistiu ela. Quando Hatun recusou as suas exigências, Ayhan sacou calmamente de uma pistola 7.65 mm e disparou três tiros à queima-roupa contra o rosto da irmã. Hatun já estava morta quando caiu no chão.

Quando os paramédicos e a Polícia chegaram, o café que Hatun tinha na mão estava misturado com o sangue. Num maço de cigarros franceses que se via no bolso do seu blusão de bombazina, lia-se «Liberté toujours». Dois dias após matar a irmã, a 9 de Fevereiro de 2005, Ayhan Sürücü estava numa das muitas fragrantes padarias turcas do Bairro de Kreuzberg, apelidado de «Pequena Istambul», porque um terço da população é de origem turca. A sua família vivia no bairro num apartamento de quatro assoalhadas e observava cinco períodos de oração por dia.

Ayhan estava de bom humor ao contar à sua namorada, Melek, de 18 anos, que tinha tido que matar Hatun porque «desprezava a forma desonrosa como ela conduzia a sua vida». Com a irmã morta – contou a Melek –, voltara «a dormir como há muitos anos não dormia».

O homicídio de Hatun deixou a Alemanha em estado de choque – mas nem toda. Pouco depois, no pátio de uma escola não muito longe do local onde Hatun foi assassinada, estudantes imigrantes aplaudiram a sua morte. Ela «mereceu», disse um deles, «por viver como uma alemã».

Ayhan vai a meio de uma pena de nove anos numa prisão juvenil, mas dois dos seus irmãos foram absolvidos do crime de conspiração para homicídio. Saíram do tribunal a fazer o «v» de «vitória», anunciando a quem os quisesse ouvir que iam festejar. Em 2007, quando o Supremo Tribunal rejeitou a absolvição, estavam ambos a salvo na Turquia.

Religião ou fanatismo?

A morte de Hatun Sürücü permanece como um exemplo de crime hediondo.
«A violência diária sobre mulheres é muito grave e não existe protecção suficiente para elas», resume Gül en Celebi, uma advogada de origem curda de 38 anos com escritório em Dusseldorf, especializada na defesa de vítimas de crimes de honra.

Uma das suas clientes, que tinha escapado a um casamento forçado e violento e lutava pela guarda dos seus três filhos, foi morta a tiro pelo ex-marido, turco, após uma audiência no Tribunal de Mönchengladbach, mesmo existindo já uma ordem de restrição de acesso e de ter sido emitido um mandado de captura. Ele também assassinou a filha, de 18 anos, por ter chamado a Polícia. «Do seu ponto de vista», recorda a advogada, «ambas as mulheres o tinham desonrado – a esposa por ter-se divorciado, a filha por se revoltar contra a sua tirania.»

«A defesa da honra pela violência pode ser anterior ao islamismo, como é a mutilação genital», diz Ayaan Hirsi Ali, antiga deputada holandesa, nascida na Somália. Mas porque se dão muitos casos nas comunidades imigrantes turcas, curdas, paquistanesas ou bengalis, ela crê que os homicídios em «defesa da honra» são um problema predominantemente muçulmano.

Em 2006, Ayaan Hirsi Ali foi considerada Cidadã Europeia do Ano pelas Selecções do Reader’s Digest pelo seu trabalho em defesa das mulheres oprimidas no seu país de adopção, tendo ela própria escapado a um casamento forçado. Ela admite que «existem assassínios de honra nas comunidades cristã copta, cigana, sikh e hindu», mas insiste que a violência é parte integrante da disciplina social islâmica.

Ayaan Hirsi Ali explica: «Enquanto mulher muçulmana, só o facto de se sair à rua sem um irmão ou o marido pode redundar em homicídio.» Por falar sem rodeios, esta mulher é agora obrigada a rodear-se de guarda-costas, na sequência de várias ameaças de morte.

Sibylle Schreiber, perita em crimes de honra na respeitada organização germânica Terre des Femmes, que apoia mulheres há cerca de 30 anos, diz que os crimes de honra não têm a ver com a religião. «Noventa por cento das jovens que nos pedem ajuda não mencionam a religião como o problema, e não há religião que estipule a existência de crimes de honra.»

Uma rapariga e um rapaz que se conheçam na escola e se apaixonem através de mensagens de telemóvel ou e-mails podem ser ambos muçulmanos, mas terão problemas se não forem da mesma tribo, da mesma cidade ou do mesmo estrato social. Quando o seu segredo for descoberto, a honra de cada família ficará manchada pela vergonha, especialmente a da família da rapariga.

Por Tim Bouquet

Link desta Matéria -
http://idademaior.sapo.pt/tempos-livres/mundo-la-fora/vitimas-da-honra/