O terrorista norueguês era um xenófobo violento que gostava de vinho francês e prostitutas de luxo. Anders Breivik quis brincar ao “Call of Duty” na vida real e acabou na prisão. Provavelmente durante os próximos 30 anos.
Anders Breivik terá agora mais do que tempo para acabar de escrever o livro que disse à madrasta que tinha em preparação. E bem pode começar assim: "Era uma vez um norueguês de 32 anos, aparentemente pacífico e socialmente bem comportado, que decidiu semear o terror...". O resto da história, a Noruega nunca mais vais esquecer. 76 mortos, o gabinete do primeiro-ministro Jens Stoltenberg destruído e centenas de adolescentes traumatizados depois de obrigados a fugir pela vida, no meio da batalha em que Breivik transformou o acampamento de jovens trabalhistas na ilha de Utoya, perto de Oslo. Breivik tornou-se responsável pelo pior massacre no país desde a Segunda Guerra Mundial. Mais: mudou a agenda da Europa, que passou a discutir questões de segurança e ameaças extremistas numa altura em que a crise era o tema dominante.
Há uma semana, o mundo acordou com a notícia de um atentado terrorista contra o primeiro-ministro norueguês. Ao mesmo tempo, e ainda sem se perceber a ligação, surgiam notícias de um louco aos tiros na ilha de Utoya, onde abateu friamente 68 pessoas. Muitas mais apanharam o susto das suas vidas na fuga daquele pesadelo pelas águas geladas do lago Tyrifjorden.
Breivik acabou preso. Espera julgamento e arrisca 30 anos de prisão, já que as autoridades norueguesas planeiam invocar uma disposição do código penal que pune "crimes contra a humanidade". Em tribunal, na primeira audição, na segunda-feira, declarou que não era culpado, só queria salvar a Europa. "Mas salvar a Europa do quê?", pergunta o mundo. Da "ocupação muçulmana" e dos "marxistas multiculturalistas" que governam o continente, percebeu-se depois, quando foram descobertas as 1.500 páginas do compêndio em que Breivik deixou inscritos as suas ideias, planos e informações úteis para todos quantos queiram seguir o seu exemplo. E nem Portugal escapava aos seus alvos. Durão Barroso estava na mira, tal como quase 12 mil portugueses.
Foi através deste documento que o mundo ficou a conhecer esta figura da semana - Breivik, assumidamente, queria ficar célebre, e nesse sentido, pedimos desculpa por estarmos a contribuir para satisfazer o desejo de um lunático. Mas a questão é maior que Breivik e precisa ser compreendida. O texto do norueguês, escrito em ritmo diário, é um precioso contributo nesse sentido. Nele se documentam os nove anos em que preparou o atentado. Tudo foi feito na solidão de uma quinta que tinha arrendado em Rena, incluindo a bomba que fez explodir no centro de Oslo. No dia dos atentados, escreveu: "Tenho material para 20 explosões. Será um cenário de tudo ou nada. Imagine se a polícia visita a minha casa nos próximos dias. Provavelmente, chegará à conclusão errada e pensará que sou terrorista."
Na sua quinta, 160 quilómetros a norte de Oslo, Breivik nunca levantou suspeitas. Nos seus textos, explica que a família começou por viver em Londres (ele, o pai, a mãe e a meia-irmã), até que os pais se divorciaram quando tinha apenas um ano. Continuou a ver o pai, que tornou a casar, até que este se separou da madrasta quando ele tinha 12 anos. Mas não o vê desde os 15. A madrasta era a única com quem esporadicamente contactava e a quem disse por diversas vezes que estava a escrever um livro, sem nunca ter explicado do que se tratava. O livro era, provavelmente, este texto em que apresenta ao mundo as suas ideias. Defende que vídeojogos como "Call of Duty - Modern Warfare 2" são úteis para "simular operações verdadeiras". Tal como "World of Warcraft", um dos videojogos online para múltiplos jogadores mais utilizados em todo o mundo.
Breivik gostava de se tratar bem e fez tudo para se preparar para o seu momento de glória. Usava esteróides e bebidas proteicas para ter mais energia e gostava de ter "comprimidos para a agressividade." É também nos seus textos que se fica a saber que o terrorista louro de olhos azuis gostava de vinho francês e de prostitutas de luxo, que pretendia contratar, na noite anterior aos atentados, para o que apelidou de "celebração do martírio". Não se sabe se o chegou a fazer ou não.
O pai de Breivik lembra o filho como um miúdo pacato e simpático. Para justificar o que ele fez, diz que só pode estar louco e que, em vez do atentado, devia ter-se suicidado. E loucura é precisamente o que o advogado de Breivik pensa alegar em sua defesa, tendo já pedido pareceres a dois especialistas. Os médicos nada concluíram ainda, mas o advogado garante que ele não tem consciência do impacto dos ataques que perpetrou.
Consciente ou não, certo é que Anders Breivik ficará na história como queria - nos seus textos, assume que quer ser um dos homens do século. Conseguiu a atenção do mundo como queria e subiu ao palco que crê ser ideal para a sua insanidade. Quanto ao livro que queria escrever, material não lhe faltará. E tempo também não.
