terça-feira, 15 de julho de 2008

1789 - Revolução Francesa

Revolução Francesa


Revolução Francesa é o nome dado ao conjunto de acontecimentos que entre 5 de Maio de 1789 e 9 de Novembro de 1799 alteraram o quadro político e social da França. Em causa estavam o Antigo Regime (Ancien Régime) e a autoridade do clero e da nobreza. Foi influenciada pelos ideais do Iluminismo e da Independência Americana (1776).

A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais na França e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité), frase de autoria de Jean Nicolas Pache. Há quem vaticine que os revolucionários instituiram à força das armas estas três premissas, que não se completam sem uma quarta: a Morte. Assim era o grito da revolução: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou a Morte!"

Terminaram os privilégios da nobreza e do clero, um primeiro passo no sentido do igualitarismo. É importante lembrar que a Revolução Francesa semeou novas ideologias na Europa, conduziu a guerras, mas foi até certo ponto derrotada pela tentativa de retornar aos padrões políticos, sociais e institucionais do Antigo Regime através de um movimento denominado de Restauração ou Contra-Revolução. Nesse período, o rei francês Luís XVIII outorgou a seus súditos uma Carta Constitucional.

A Revolução Francesa pode ser subdividida em quatro grandes períodos: a Assembléia Constituinte, a Assembléia Legislativa, a Convenção e o Directório.

Causas da Revolução

As causas da revolução são remotas e imediatas. Entre as do primeiro grupo, há que considerar que a França passava por um período de crise econômica após anos de prosperidade. A participação francesa na guerra da independência norte-americana e os elevados custos da Corte de Luís XVI tinham deixado as finanças do país em mau estado.

Sociais
A sociedade francesa da segunda metade do século XVIII era composta por dois grupos muitos privilegiados:

o Clero ou Primeiro Estado, composto por Alto Clero, que representava 0,5% da população francesa e identificado com a nobreza além de negar reformas, e pelo Baixo Clero, identificado com o povo, e que as reclamava;
a Nobreza, ou Segundo Estado, composta por uma camada palaciana ou cortesã, que sobrevivia à custa do Estado, por uma camada provincial, que se mantinha com as rendas dos feudos, e uma camada chamada Nobreza Togada, onde alguns juízes e altos funcionários burgueses adquiriram os seus títulos e cargos, transmissíveis aos seus herdeiros. Aproximava-se de 1,5% dos habitantes.
Estes dois grupos (ou Estados) oprimiam e exploravam o Terceiro Estado, grupo constituído por burgueses, camponeses sem terra e os "sans-culottes", uma camada heterogênea composta por artesãos, aprendizes e proletários, que tinham este nome graças à s calças simples que usavam, diferentes dos tecidos nobres utilizados pelos nobres. Os impostos e contribuições para o Rei, o Clero e a Nobreza, incidiam sobre o Terceiro Estado, uma vez que o Clero e a Nobreza, não só tinham isenção tributária como ainda usufruíam do Tesouro Real através de pensões e cargos públicos.

A reavaliação das bases jurídicas do Antigo Regime foi montada à luz do pensamento Iluminista, representada por Voltaire, Diderot, Montesquieu, John Locke etc. Eles forneceram pensamentos para criticar as estruturas políticas e sociais absolutistas, e sugeriram a idéia de uma ordem liberal burguesa.

Econômicas

Os historiadores colocam o ano de 1789 como o início da Revolução Francesa. Mas essa, por uma das "ironias" da história, começou dois anos antes, com uma reação dos notáveis franceses - clérigos e nobres - contra o absolutismo, que pretendia reformar-se e para isso buscava limitar seus privilégios. Luís XVI convocou a nobreza e o clero para contribuírem no pagamento de impostos, na altamente aristocrática Assembléia dos Notáveis (1787). Em meio ao caos econômico e ao descontentamento geral, Luís XVI de França não conseguiu promover reformas tributárias, impedido pela nobreza e pelo clero, que não queriam dar os anéis para salvar os dedos. Não percebendo que seus privilégios dependiam do absolutismo, os notáveis pediram ajuda à burguesia para lutar contra o poder real - era a Revolta da Aristocracia ou dos Notáveis (1787-1789). Eles iniciaram a revolta ao exigir a convocação dos Estados Gerais para votar o projeto de reformas.

Por sugestão do Ministro Jacques Necker, convocou a Assembléia dos Estados Gerais, instituição que não era reunida desde 1614. Os Estados Gerais se reuniram em Maio de 1789 no Palácio de Versalhes, com o objetivo não declarado de conseguir que o Terceiro Estado pagasse os impostos que o Clero e a Nobreza se recusavam a pagar.

As causas econômicas também eram estruturais. As riquezas eram mal distribuídas; a crise produtiva manufatureira estava ligada ao sistema corporativo, que fixava quantidade e condições de produtividade. Isso descontentou a burguesia.

Outro fator econômico foi a crise agrícola, que ocorreu graças ao aumento populacional. Entre 1715 e 1789, a população francesa cresceu consideravelmente, entre 8 e 9 milhões de habitantes. Como a quantidade de alimentos produzida era insuficiente e as geadas abatiam a produção alimentícia, o fantasma da fome pairou sobre os franceses.

Políticas
Os próprios servidores do Parlamento contestavam o regime e organização absolutistas, onde o poder era Real. O monarca estabelecia leis que podiam ser analisadas, julgadas e, se preciso, vetadas pelo Parlamento. O ministério propôs então a reforma que faria com que o clérigo e a nobreza pagassem impostos e se igualassem ao Terceiro Estado, mas que foi vetada pelo Parlamento. Para justificar esta decisão, afirmaram que só a Assembléia Constituinte poderia decidir sobre a criação de novos impostos.

O processo eleitoral compreendia duas fases, onde na primeira os eleitores votavam nos que, numa segunda fase, escolheriam os deputados. Numa sessão especial, Luís XVI reafirmou seu poder absoluto, obrigando o complexo cerimonial a se rebaixar. Então o Parlamento se exilou. Como o rei não poderia mais efetuar a reforma sem os magistrados, pediu então um empréstimo, que foi também negado e considerado ilegal. Em 1788, o rei reduziu o número de parlamentares; a porção rebelde deles obteve a duplicação dos representantes do Terceiro Estado, apesar de ser insuficiente.

A Assembléia Constituinte
Os deputados dos três estados eram unânimes em um ponto: desejavam limitar o poder real, à semelhança do que se passava na vizinha Inglaterra e que igualmente tinha sido assegurado pelos norte-americanos nas suas constituições. No dia 5 de maio, o rei mandou abrir a sessão inaugural dos Estados Gerais e, no seu discurso, advertiu que não se deveria tratar de política, isto é, da limitação do poder real, mas apenas da reorganização financeira do reino e do sistema tributário.

O Clero e a Nobreza tentaram diversas manobras para conter o ímpeto reformista do Terceiro Estado, cujos representantes comparecem à Assembléia apresentando as reclamações do povo (materializadas nos "Cahiers de Doléances"). Os deputados da nobreza e do clero queriam que as eleições fossem por estado (clero, um voto; nobreza, um voto; e povo, um voto), pois assim, já que clero e nobreza comungavam os mesmos interesses, garantiriam seus privilégios. O terceiro estado queria que a votação fosse individual, por deputado, porque, contando com votos do baixo clero e da nobreza liberal, conseguiria reformar o sistema tributário do reino. Diante da impossibilidade de conciliar tais interesses, Luís XVI tentou dissolver os Estados Gerais, impedindo a entrada dos deputados na sala das sessões. Os representantes do Terceiro Estado rebelaram-se e invadiram a sala do jogo da péla (espécie de tênis em quadra coberta), em 15 de Junho de 1789, e transformaram-se na Assembléia Nacional, jurando só se separar após a votação de uma constituição para a França (Juramento da Sala do Jogo da Péla). Em 9 de Julho de 1789, juntamente com muitos deputados do baixo clero, os Estados Gerais autoproclamaram-se Assembléia Nacional Constituinte.

Esta decisão incitou o rei a tomar medidas mais drásticas, entre as quais a demissão do ministro Jacques Necker, conhecido por suas posições reformistas. Ao descobrirem o acto, as massas parisienses mobilizaram-se e tomaram as ruas da cidade. Os ânimos exaltaram-se e aumentaram as propostas de tomar as armas.

O rei decidiu reagir fechando a Assembléia, mas foi impedido por uma sublevação popular em Paris, reproduzida a seguir em outras cidades e no campo.

Em 13 de Julho, organizou-se a Guarda Nacional, uma milícia burguesa para resistir ao rei e liderar a população civil, cujo comando coube ao deputado da Assembléia e herói da independência dos Estados Unidos, o Marquês de La Fayette.

Enquanto isso, os acontecimentos precipitaram-se e a agitação tomou conta das ruas: a 13 de Julho constituíram-se as Milícias de Paris, organizações militares-populares. No dia 14 de Julho, populares armados invadiram o Arsenal dos Inválidos, à procura de munições e, em seguida, invadiram a Bastilha, uma fortaleza que tinha sido transformada em prisão política, mas que já não era a terrível prisão de outros tempos. Os rebeldes tomaram a Bastilha por causa da pólvora que lá estava armazenada. Caiu assim um dos símbolos do absolutismo. A Queda da Bastilha causou profunda emoção nas províncias e acelerou a queda dos intendentes. Novas municipalidades e guardas nacionais foram organizadas.

A partir de então, a Revolução estendeu-se ao campo, com maior violência: os camponeses saquearam as propriedades feudais e invadiram e queimaram os castelos e cartórios, para destruir os títulos de propriedade das terras (fase do Grande Medo). Temendo o radicalismo, a noite de 4 de agosto, a Assembléia Nacional Constituinte aprovou a abolição dos direitos feudais, gradual e mediante amortização, além das terras da Igreja terem sido confiscadas. Daí por diante, a igualdade jurídica seria regra.

Inspirada na Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 26 de agosto, a Assembléia divulgou a primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, (a que não terá sido estranha a acção do então embaixador dos EUA em Paris, Thomas Jefferson), síntese do pensamento iluminista liberal e burguês. Nesse documento, onde se pode ver claramente a influência da Revolução Americana, era defendido o direito de todos à liberdade, à propriedade, à igualdade - igualdade jurídica, e não social nem econômica - e de resistência à opressão. A desigualdade social e de riqueza continuava existindo. O nascimento, a tradição e o sangue não eram mais critérios para diferenciar socialmente os homens; foram substituídos pelo dinheiro e pela propriedade, que a partir daí passam a garantir a seus possuidores o prestígio social, embora, perante a lei, todos, desde o miserável ao milionário, fossem teoricamente iguais.

Pressionado pela opinião pública, Luís XVI deixou Versalhes, estabelecendo-se no Palácio das Tulherias, em Paris (outubro de 1789). Ali era mais facilmente admoestado pelas massas parisienses.

Fervilhavam os clubes: a imprensa tinha um papel cada vez maior nos acontecimentos políticos. Jean-Paul Marat e Hébert escreviam artigos incendiários.

A nobreza conservadora e o alto clero abandonaram a França, refugiando-se nos países absolutistas, de onde conspiraram contra a revolução. Numa reação contra os privilégios do clero e buscando recursos para sanar o déficit público, o governo desapropriou os bens da Igreja, colocando-as à venda e, com o seu produto, emitiu bônus do tesouro, os assignats, valendo como papel-moeda, logo depreciado. As propriedades da Igreja logo passaram para as mãos da burguesia. Para os camponeses pobres, restaram à s propriedades menores, que puderam ser adquiridas mediante facilitações.

Em agosto de 1790, foi votada a Constituição Civil do Clero, separando Igreja e Estado e transformando os clérigos em assalariados do governo, a quem deviam obediência. Ela determinava também que os bispos e padres de paróquia seriam eleitos por todos os eleitores, independente de sua filiação religiosa. O papa opôs-se a isso. Os clérigos deveriam jurar a nova Constituição. Os que fizeram isso ficaram conhecidos como juramentados; os que se recusaram passaram a ser chamados de refratários e engrossaram o campo da Contra-Revolução.

Procurando frear o movimento popular, a Assembléia Nacional Constituinte, pela Lei de Le Chapelier, proibiu associações e coalizões profissionais.

No palácio real, conspirava-se abertamente. O rei, a rainha, os seus conselheiros, os embaixadores da Áustria e da Prússia eram cabeças da conspiração. A Áustria e a Prússia, países absolutistas invadiram a França, que foi derrotada porque oficiais ligados à nobreza permitiram o fracasso do exército francês. Denunciou-se a traição na Assembléia. Em junho de 1791 a família real tentou fugir para a Áustria. O rei foi descoberto na fronteira, em Varennes, e é obrigado a voltar. A assembléia absolveu Luís XVI, mantendo a monarquia. Para justificar essa decisão, alegou que o rei fora seqüestrado. A Guarda Nacional, comandada por La Fayette, reprimiu violentamente a multidão que queria a deposição do rei.

A Constituição de 1791
Em setembro de 1791, foi promulgada a primeira Constituição da França que resumia as realizações da Revolução.

Influenciada pelo exemplo dos Estados Unidos, a França implantou uma monarquia constitucional, isto é, o rei perdia os seus poderes absolutos. A carta estabelecia uma clara separação entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário e concedia direitos civis completos aos cidadãos.

A população foi dividida em cidadãos ativos e passivos. Somente os cidadãos ativos, que pagavam impostos e possuíam dinheiro ou propriedades, participavam da vida política. Era o voto censitário. Os passivos eram os não-votantes, como mulheres, trabalhadores, desempregados e outros.

Apesar de ter limitado os poderes do rei, este tinha ainda o direito de designar seus ministros.

De mais, a constituição abolia o feudalismo, nacionalizava os bens eclesiásticos e reconhecia a igualdade civil e jurídica.

Em síntese, a Constituição de 1791 visava a criar, na França, uma sociedade burguesa e capitalista, em lugar da anterior, feudal e aristocrática.

Apesar disso, este projeto não teve muita sustentação. Alguns setores urbanos queriam continuar com o processo revolucionário, enquanto nobres fugiam e se refugiavam no exterior, planejando à distância organizar violentamente uma revanche armada. Os emigrados tinham apoio de Estados Absolutistas como Áustria e Prússia, que viam a Constituição como perigosa.

Em agosto de 1791, após a tentativa frustada de fuga da família real para a Áustria, os países que até então apoiavam a França lançaram a Declaração de Pillnitz, que afirmava (e apoiava) a restauração da monarquia francesa como um projeto de interesse comum a todos os Estados europeus. A população francesa ficou enfurecida, pois enxergava esta ação como uma intromissão direta aos assuntos do país.

A Assembléia Legislativa (1791-1792)
Em 1791 iniciou-se a fase denominada Monarquia Constitucional. Nas eleições de outubro de 1791, as cadeiras da Assembléia Legislativa foram ocupadas predominantemente por elementos da burguesia.

Embora a burguesia tivesse de enfrentar, dentro da Assembléia, a oposição da aristocracia, cujos deputados ocupavam o lado direito de quem entrava no recinto de reuniões, e também dos democratas, que ocupavam o lado esquerdo, as maiores dificuldades estavam fora da Assembléia.

À extrema direita, o rei e a aristocracia se recusavam a aceitar qualquer compromisso. À extrema esquerda, a pequena e média burguesia sentiam-se lesadas e enganadas.

Os camponeses, desesperados, porque tinham de pagar pela extinção dos direitos feudais, retomaram a violência.

O confisco dos bens da Igreja e a Constituição do Clero, que faziam com que os religiosos rompessem com o papado, levaram a maior parte do clero para o campo da Contra-Revolução.

Apesar de todas as dificuldades, a alta burguesia se mantinha no poder.

A Queda da Monarquia

Os emigrados buscavam apoio externo para restaurar o Estado absoluto. As vizinhas potências absolutistas apoiavam esses movimentos, pois temiam a irradiação das idéias revolucionárias francesas para seus países. Os emigrados e as monarquias absolutistas formaram uma aliança destinada a restaurar, na França, os poderes absolutos de Luís XVI. Alegando a necessidade de se restaurar a dignidade real da França, na Declaração de Pillnitz (1791) esses países ameaçaram a França de uma intervenção.

Em 1792, a Assembléia Legislativa aprovou uma declaração de guerra contra a Áustria. É interessante salientar que a burguesia e a aristocracia queriam a guerra por motivos diferentes. Enquanto para a burguesia a guerra seria breve e vitoriosa, para o rei e a aristocracia seria a esperança de retorno ao velho regime. Palavras de Luís XVI: "Em lugar de uma guerra civil, esta será uma guerra política" e da rainha Maria Antonieta: "Os imbecis [referia-se a burguesia]! Não vêem que nos servem". Portanto, o rei e a aristocracia não vacilaram em trair a França revolucionária.

Diante da aproximação dos exércitos coligados estrangeiros, formaram-se por toda a França batalhões de voluntários.

Luís XVI e Maria Antonieta foram presos, acusados de traição ao país por colaborarem com os invasores.

Verdun, última defesa de Paris, foi sitiada pelos prussianos. O povo, chamado a defender a revolução, saiu à s ruas e massacrou muitos partidários do Antigo Regime. Sob o comando de Danton, Robespierre e Marat, foram distribuídas armas ao povo e foi organizada a Comuna Insurrecional de Paris. As palavras de Danton ressoaram de forma marcante nos corações dos revolucionários. Disse ele: "Para vencer os inimigos, necessitamos de audácia, cada vez mais audácia, e então a França estará salva". Aconteceu aquilo que parecia impossível: as tropas revolucionárias, famintas, mal vestidas, mas alimentadas pelo ardor revolucionário, derrotaram, ao som da Marselhesa (o hino da revolução), a coalizão anti-francesa na Batalha de Valmy.

A Convenção (1792-1795)

Em 10 de agosto de 1792, a Assembléia foi dissolvida e a monarquia extinta. Criou-se uma nova Assembléia Nacional Constituinte (a Convenção Nacional), entrando numa fase radical. As primeiras medidas tomadas pela Convenção foram a Proclamação da República e a promulgação de uma nova Constituição (21 de setembro de 1792). Eleita sem a divisão dos eleitores em passivos e ativos, a alta burguesia monarquista foi derrotada. A Convenção contava com o predomínio dos representantes da burguesia.

Entre os revolucionários de 1789, houve uma divisão. A grande burguesia não queria aprofundar e radicalizar a revolução, temendo o radicalismo popular. Aliada aos setores da nobreza liberal e do baixo clero, formou o Clube dos Girondinos. O nome "girondino" (do francês girondin) deve-se ao fato de Brissot, principal líder dessa facção, representar o departamento da Gironda e de seus principais líderes serem provenientes de lá. Eles ocupavam os bancos inferiores no salão das sessões. Os jacobinos (do francês jacobin) — assim chamados porque se reuniam no convento de Saint Jacques — queriam aprofundar a revolução, aumentando os direitos do povo; eram liderados pela pequena burguesia e apoiados pelos sans-culottes, as massas populares de Paris. Ocupavam os assentos superiores no salão das sessões, recebendo o nome de montanha. Seus principais líderes forma Danton, Marat e Robespierre. Sua facção mais radical era representada pelos raivosos, liderados por Hebert, que queriam o povo no poder. Havia ainda um grupo de deputados sem opiniões muito firmes, que votavam na proposta que tinha mais chances de vencer. Eram chamados de planície ou pântano. Havia ainda os cordeliers (camadas mais baixas) e os feuillants (a burguesia financeira).

As modernas designações políticas de direita, centro e esquerda surgem neste momento: com relação à Mesa da Presidência identificavam-se à direita os girondinos, que desejavam consolidar as conquistas burguesas, estancar a revolução e evitar a radicalização; ao centro, a Planície ou Pântano, grupo de burgueses sem posição política definida; e à esquerda, a Montanha, composta pela pequena burguesia jacobina que liderava os sans-culottes, e que defendia o aprofundamento da revolução.

Dirigida inicialmente pelos girondinos, a convenção realizava uma política contraditória: era revolucionára na política externa — ao combater os países absolutistas — mas conservadora na interna — ao procurar se acomodar com a nobreza, tentar salvar a vida do rei e combater os revolucionários mais radicais. Nesse primeiro período, foram descobertos documentos secretos de Luís XVI, no palácio das Tulherias, que provaram seu comprometimento com o rei da Áustria. O fato acelerou as pressões para que o rei fosse julgado como traidor. Na Convenção, a Gironda dividiu-se: alguns optaram por um indulto, outros pela pena de morte. Os jacobinos reforçados pelas manifestações populares, exigiam a execução do rei, indicando o fim da supremacia girondina na Revolução.

República Jacobina

Os jacobinos, com apoio dos sans-culottes e da Comuna de Paris (designação que foi dada ao novo governo local da cidade), assumiram o poder no momento crítico da Revolução.

A Convenção reconheceu a existência do Ser Supremo e da imortalidade da alma. A virtude seria o elemento essencial da República.

Em 21 de janeiro de 1793, Luís XVI foi guilhotinado na praça da Revolução. Vários países europeus, como a Áustria, Prússia, Holanda, Espanha e Inglaterra, indignados e temendo que o exemplo francês se refletisse em seus territórios, formaram a Primeira Coligação contra a França. Encabeçando a Coligação, a Inglaterra financiava os grandes exércitos continentais para conter a ascensão burguesa da França, seu potencial concorrente nos negócios europeus.

No departamento de Vendéia, no oeste da França, camponeses contra-revolucionários, instigados pela Igreja, pela nobreza e pelos ingleses, tomaram o poder. Os girondinos tentaram frear a proposta de mobilização geral do povo francês, temendo a perda do poder e a radicalização da revolução, que ameaçaria suas propriedades e bens. Em resposta, em 2 de Junho de 1793, a população de Paris, agitada pelos partidários de Hebert, cercou o prédio da convenção, pedindo a prisão dos deputados girondinos. Os membros da Gironda foram expulsos da convenção deixando uma triste herança: inflação, carestia e avanço da contra-revolução, tudo isso agravado pela guerra no plano externo. Marat, Hébert, Danton, Saint-Just e Robespierre assumiram o poder, dando início ao período da Convenção Montanhesa.

A Contra-Revolução Camponesa da Vendéia e a ameaça externa colocavam a revolução à beira do abismo. Para combater essa situação, os jacobinos organizaram os comitês, cujos objetivos eram controlar o governo, combater os contra-revolucionários e mobilizar a França para uma guerra total em defesa da revolução.

Devido ao predomínio da atuação popular, esse período caracterizou-se por ser o mais radical de toda a Revolução. O governo jacobino dirigia o país por meio do Comitê de Salvação Pública, responsável pela administração e defesa externa do país, de início comandado por Danton, seu criador. Abaixo, vinha o Comitê de Salvação Nacional ou de Segurança Geral, que cuidava da segurança interna, e a seguir o Tribunal Revolucionário, que julgava os opositores da revolução em julgamentos sumários.

Decretada a mobilização geral, criou-se uma economia de guerra, com o racionamento das mercadorias e o combate aos especuladores, que, aproveitando-se da situação, escondiam os produtos para aumentar os preços.

Os jornais populares utilizavam-se de linguagem grosseira para caracterizar os aristocratas e inimigos da revolução. Ao mesmo tempo em que pediam que fossem punidos, pregavam as virtudes revolucionárias, o patriotismo e a defesa intransigente da revolução. O mais importante desses jornais era O amigo do povo, dirigido pelo jacobino Marat.

Quando, em julho, Marat foi assassinado pela jovem Charlotte Corday, os ânimos se exaltaram. Considerado excessivamente moderado, Danton foi substituído por Robespierre e expulso do partido. O Comitê de Salvação Pública, liderado por Robespierre, assumiu plenos poderes. Tinha início o Grande Terror, Terror Jacobino ou, simplesmente, Terror. Milhares de pessoas — a ex-rainha Maria Antonieta, aristocratas, clérigos, girondinos, especuladores, inimigos reais ou presumidos da revolução — foram detidas sumariamente e guilhotinadas. Os direitos individuais foram suspensos e, diariamente, realizavam-se, sob aplausos populares, execuções públicas e em massa. O líder jacobino Robespierre, sancionando as execuções sumárias, anunciara que a França não necessitava de juízes, mas de mais guilhotinas. O resultado foi à condenação à morte de 35 mil a 40 mil pessoas. A Insurreição camponesa da Vendéia foi esmagada. O exército francês começou a ganhar terreno nos campos de batalha em 1794 e a coalizão antifrancesa foi derrotada.


Embora utilizassem o terror para combater a contra-revolução, os jacobinos não foram os sanguinários que muitos conservadores pintam. Eles cometeram muitos erros, provavelmente muitas injustiças em seus julgamentos sumários, mas defendiam a revolução, aprofundaram a democracia e realizaram muitas reformas sociais para obter o apoio das camadas populares. As principais realizações desse período foram:

Abolição da escravidão nas colônias francesas, talvez o maior feito social dos jacobinos. Os girondinos, embora falassem em igualdade de todos perante a lei, haviam mantido os escravos nas colônias da França, pois muitos deles eram proprietários de engenhos escravistas nas colônias. Os jacobinos, por não terem interesses nesses engenhos, realizaram plenamente os ideais iluministas de dignidade humana e de igualdade de todos perante a lei, ao abolir a escravidão;
Reforma Agrária: confisco das terras da nobreza emigrada e da Igreja, que foram divididas em lotes menores e vendidas a baixo preço aos camponeses pobres. Os pagamentos foram divididos em 10 anos;
Lei do Máximo ou Lei do Preço Máximo, estabelecendo um teto máximo para preços e salários;
Venda de bens públicos e dos emigrados para recompor as finanças públicas;
Entrega de pensões anuais e assistência médica gratuita a crianças, velhos, enfermos, mães e viúvas;
Auxílio aos indigentes, que participaram da distribuição dos bens dos condenados;
Desenvolvimento de um culto revolucionário fundado na razão e na liberdade. A Catedral de Notre Dame (Paris), por exemplo, foi transformada no "templo da razão";
Proclamação da Primeira República Francesa (setembro de 1792);
Organização de um exército revolucionário e popular que liquidou com a ameaça externa;
Organização dos seguintes comitês: o Comitê de Salvação Pública, formado por nove membros e encarregado do poder executivo, e o Comitê de Salvação Nacional ou de Segurança Geral, encarregado de descobrir os suspeitos de traição;
Criação do Tribunal Revolucionário, que julgava os opositores da Revolução;
Elaboração da Constituição do Ano I (1793), que pregava uma ampla liberdade política e o sufrágio universal masculino. Essa Carta, inspirada nas idéias de Rousseau, era uma das mais democráticas da história;
Elaboração de uma outra Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, escrita por Robespierre, em que se afirmava que a finalidade da sociedade era o bem comum e que os governos só existem para garantir ao homem seus direitos naturais: a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade;
Criação do ensino público gratuito;
Fundação do Museu do Louvre, da Escola Politécnica e do Instituto da França;

Instituição de um novo calendário, para romper com o passado e simbolizar o início de uma nova era na história da humanidade. Este calendário tinha características marcadamente anticlericais e passou a basear-se nos fenômenos da natureza. Cada mês recebeu uma denominação baseada nas características da natureza, e o primeiro dia dessa nova era — 22 de Setembro de 1792 — foi à data da proclamação da república. O primeiro mês chamava-se vindário (em referência a Víndima ou colheita de uvas), seguiam-se o brumário (relativo à bruma ou nevoeiro), o frimário (Mês das geadas ou frimas em francês), o nivoso (referente à neve), o pluvioso (chuvoso), o ventoso, o germinal (relativo à germinação das sementes), o floreal (mês das flores), o pradial (em referência a prados), o messiador (nome originário de messis, palavra latina que significa colheita), o termidor (referente ao calor) e o frutidor (relativo aos frutos). Como cada mês tinha trinta dias, sobravam cinco dias no final do ano (de 17 a 21 de setembro): eram os dias dos sans-culottes, considerados feriados nacionais.
Cansada do terror, execuções, congelamento de preços e dos excessos revolucionários, a burguesia queria paz para seus negócios. Essa posição era defendida pelos jacobinos liderados por Danton. Os sans-culottes — que eram a plebe urbana — pretendiam radicalizar mais a revolução, posição defendida pelos raivosos. A falta de habilidade política de Robespierre ficou evidente quando, declarando a "pátria em perigo", tomou uma série de medidas impopulares para evitar as radicalizações — os partidários e políticos mais radicais, como a ala esquerda, dos partidários de Herbert, e da ala direita, que tinha como líder Danton, foram executados. A facção de centro, liderada por Robespierre e Saint-Just, triunfou, porém ficou isolada. Esse é o mal de quase todas as revoluções ocorridas até hoje: começam executando os inimigos e acabam executando os revolucionários, sina da quais os incorruptíveis e bem-intencionados jacobinos não conseguiram escapar.

Reação Termidoriana

Muitos girondinos que haviam sobrevivido ao terror, aliados aos deputados da planície, articularam um golpe. Em 27 de Julho (9 Termidor, de acordo com o calendário revolucionário francês) a Convenção, numa rápida manobra, derrubou Robespierre e seus partidários. Robespierre apelou para que as massas populares saíssem em sua defesa. Mas os que podiam mobilizá-las — como os raivosos — estavam mortos, e os sans-culottes não atenderam ao chamado. Robespierre e os líderes jacobinos foram guilhotinados sumariamente. A Comuna de Paris e o partido jacobino deixaram de existir. Era o golpe de 9 Termidor, que marcou a queda da pequena burguesia jacobina e a volta da grande burguesia girondina ao poder. O movimento popular entrou em franca decadência.

A Convenção Termidoriana (1794-1795) foi curta, mas permitiram a reativação do projeto político burguês, com a anulação de várias decisões montanhesas, como a Lei do Preço Máximo (congelamento da economia) e o encerramento da supremacia do Comitê de Salvação Pública. Foram extinguidas as prisões arbitrárias e os julgamentos sumários. Todos os clubes políticos foram dissolvidos e os jacobinos passaram a ser perseguidos.

Em 1795, a Convenção elaborou uma nova constituição - a Constituição do Ano III -, suprimindo o sufrágio universal e resgatando o voto censitário para as eleições legislativas, marginalizando, assim, grande parcela da população. A carta reservava o poder à burguesia. No final de 1795, de acordo com a nova Constituição, a Convenção cedeu lugar ao Diretório, formado por cinco membros eleitos pelos deputados. Iniciou-se, assim, a República do Diretório.

O Directório (1795-1799)
O Diretório (1794 a 1799) foi uma fase conservadora, marcada pelo retorno da Alta Burguesia ao poder e pelo aumento do prestígio do Exército apoiado nas vitórias obtidas nas Campanhas externas.

Uma nova constituição entregou o Poder Executivo ao Diretório, uma comissão constituída de cinco diretores eleitos por cinco anos. Esta carta prevê o direito de voto masculino aos alfabetizados. O poder legislativo era exercido por duas câmaras, o Conselho dos Anciãos e o Conselho dos Quinhentos.

Era a república dos proprietários, que tiveram de enfrentar uma grave crise financeira. Registra-se uma oposição interna ao governo, devido à crise econômica e à anulação das conquistas sociais jacobinas. O governo teve de enfrentar tentativas de golpes à direita (monarquistas ou realistas) e à esquerda (jacobinos).

As ações contra o novo governo se sucediam. Em 1795, um golpe realista foi abortado em Paris. Aproveitando o descontentamento dos sans-culottes, os remanescentes jacobinos tentaram organizar em 1796 a chamada Conjuração ou Conspiração dos Iguais, liderada por François Noël Babeuf (mais conhecido como Graco Babeuf). Os seguidores desse movimento popular, com algumas pinceladas socialistas, desejavam não apenas igualdades de direitos (igualdade perante a lei), mas também igualdade nas condições de vida. Babeuf achava que a única maneira de alcançar a igualdade era com a abolição da propriedade privada. A insurreição foi denunciada antes mesmo de se iniciar e seus líderes, Graco Babeuf e Buonarroti, foram condenados à guilhotina. As idéias de Babeuf, entretanto, serviram de base para a luta da classe operária no século XIX.

Externamente, entretanto, o exército acumulava vitórias contra as forças absolutistas de Espanha, Holanda, Prússia e reinos da Itália, que, em 1799, formaram a Segunda Coligação contra a França revolucionária.

Napoleão Bonaparte no Poder

O governo não era respeitado pelas outras camadas sociais. Os burgueses mais lúcidos e influentes perceberam que com o Diretório não teriam condição de resistir aos inimigos externos e internos e manter o poder. Eles acreditavam na necessidade de uma ditadura militar, uma espada salvadora, para manter a ordem, a paz, o poder e os lucros.

A figura que sobressai ao final do período é a de Napoleão Bonaparte. Ele era o general francês mais popular e famoso da época. Quando estourou a revolução, era apenas um simples tenente e, como os oficiais oriundos da nobreza abandonaram ou foram demitidos do exército revolucionário, fez uma carreira rápida. Aos 24 anos já era general de brigada. Após um breve período de entusiasmo pelos jacobinos, chegando inclusive a ser amigo dos familiares de Robespierre, afastou-se deles quando estavam sendo depostos. Lutou na Revolução contra os países absolutistas que invadiram a França e foi responsável pelo sufocamento do golpe de 1795.

Enviado ao Egito para tentar interferir nos negócios do império inglês, o exército de Napoleão foi cercado pela marinha britânica nesse país, então sobre tutela inglesa. Napoleão abandonou seus soldados e, com alguns generais fiéis, retornou à França, onde, com apoio de dois diretores e de toda grande burguesia, suprimiu o Diretório e instaurou o Consulado, dando início ao período napoleônico em 18 de brumário (10 de Novembro de 1799).

O Consulado era representado por três elementos: Napoleão, o abade Sieyès e Roger Ducos. Na realidade o poder concentrou-se nas mãos de Napoleão, que ajudou a consolidar as conquistas burguesas da Revolução.

Datas e Fatos Essenciais
1787: Revolta dos Notáveis
1789: Revolta do Terceiro Estado; 14 de julho: Tomada da Bastilha; 26 de agosto: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
1790: Confisco dos bens do Clero.
1791: Constituição que estabeleceu a Monarquia Constitucional.
1791: Tentativa de fuga e prisão do rei Luís XVI.
1792: Invasão da França pela Áustria e Prússia.
1793: Oficialização da República e morte do Rei Luís XVI; 2ª Constituição.
1793: Terror contra os inimigos da revolução.
1794: Deposição de Robespierre.
1795: Regime do Diretório — 3ª Constituição.
1799: Golpe do 18 de brumário (9 de novembro) de Napoleão.
Rea(c)ções e comentários no estrangeiro
Reino Unido
Entre os britânicos que acolheram (inicialmente) a Revolução Francesa como um acontecimento positivo conta-se Dugald Stewart. Stewart seguiu os acontecimentos em Paris nesse verão dramático de 1789. Ele acreditava nos princípios pelos quais a revolução se batia. Sentiu-se repelido quando leu os comentários de Edmund Burke no seu "Reflections on the Revolution in France". Burke previu acertadamente que a Revolução Francesa acabaria na perdição, terror, morte e ditadura. Um aluno de Stewart, James Mackintosh, escreveu em resposta uma apaixonada defesa da causa francesa. Nos anos seguintes, Stewart defendeu ainda a Revolução, apesar de o terror e o caos serem evidentes. Em Novembro de 1791, Dugald Stewart escreve a um amigo: "As pequenas desordens que podem ocorrer num país onde as coisas em geral correm tão bem são de menor importância".

Já no ano seguinte ver-se-ia que Burke tinha razão. Edmund Burke faleceu em 1797, convicto de que a Revolução Francesa acabaria por terminar na ditadura. Napoleão veio dar-lhe razão. Burke ganhou na sociedade britânica uma reputação de um homem clarividente e perspicaz.

Em forte contraste, Dugald Stewart perdeu o respeito dos seus concidadãos e foi ostracizado em Edimburgo, onde vivia. James Mackintosh pediu desculpas publicamente por criticar Burke e tornou-se um forte crítico do regime francês e das revoluções em geral.

Raymond Aron
O sociólogo do século XX Raymond Aron escreve em O ópio dos intelectuais o seguinte a propósito da revolução francesa, comparando-a com a evolução da Inglaterra:

A passagem do Ancien Régime para a sociedade moderna é consumada na França com uma ruptura e uma brutalidade únicas. Do outro lado do Canal da Mancha, na Inglaterra, o regime constitucional foi instaurado progressivamente, as instituições representativas advêm do parlamento, cujas origens remontam aos costumes medievais. No século XVIII e XIX, a legitimidade democrática se substitui à legitimidade monárquica sem a eliminar totalmente, a igualdade dos cidadãos apagou pouco a pouco a distinção dos "Estados" (Nobreza, clero e povo). As idéias que a revolução francesa lança em tempestade através da Europa: soberania do povo, exercício da autoridade conforme a regras, assembléias eleitas e soberanas, supressão de diferenças de estatutos pessoais, foram realizadas em Inglaterra, por vezes mais cedo do que em França, sem que o povo, em sobressalto de Prometeu, sacudisse as suas correntes. A "democratização" foi ali (em Inglaterra) a obra de partidos rivais.
(...) O Ancien Régime desmoronou-se (em França) de um só golpe, sem quase se defender, e a França precisou de um século para encontrar outro regime que fosse aceito pela grande maioria da nação.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

1776 - Revolução Americana

Revolução Americana de 1776

A Revolução Americana de 1776 teve suas raízes com a assinatura do Tratado de Paris que em 1763 acabou por finalizar a Guerra dos Sete Anos. Ao final do conflito, o território do Canadá foi incorporado pela Inglaterra. Por este motivo, as treze colônias representadas por Massachusetts, Rhode Island, Connecticut, New Hampshire, Nova Jersey, Nova York, Pensilvânia, Delaware, Virgínia, Maryland, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia começaram a ter seguidos e crescentes conflitos com a metrópole, que finalmente desencadeariam o desejo e a declaração de independência, em 4 de julho de 1776, e a Guerra de independência dos Estados Unidos da América. A guerra teria fim em 1783, quando a independência dos Estados Unidos foi reconhecida pelo Reino Unido no Tratado de Paris de 1783. Apesar da estrutura social ter permanecido inalterada (o norte continuou capitalista e no sul a escravidão foi mantida), a Guerra da Independência dos Estados Unidos é chamada de revolução por ter instituido, na Constituição de 1787, vigente até hoje, uma república federal, a soberania da nação, e divisão tripartida dos poderes. Além disso, influenciou as revoluções liberais que aconteceram na Europa, como a Revolução Francesa.

Atritos
A Guerra dos Sete Anos, terminada pela vitória da Inglaterra sobre a França (Tratado de Paris, 1763), deixou a nação vencedora na posse de ricos territórios no continente americano, já colonizados, sendo reconhecido o seu direito de expandir o seu domínio em direção ao interior do continente. Esta possibilidade agradou aos colonos, que prontamente se prepararam para explorar e aproveitar novas terras, mas, para sua grande surpresa, o governo de Londres, por recear desencadear guerras com as nações índias, determinou que nenhuma nova exploração ou colonização de territórios pudesse ser feita sem a assinatura de tratados com os índios. Foi esta a primeira fonte de conflito entre os colonos e a Coroa inglesa.

Mas, pouco depois, surgiram novos atritos. A Guerra dos Sete Anos, apesar de vencida pela Inglaterra, obrigou a Coroa a impor medidas restritivas à s Treze Colônias. Procurando restaurar o equilíbrio financeiro, a metrópole apertava as malhas do pacto colonial com vários atos. Em 1750 foi proibida a fundição de ferro nas colônias. Em 1754 proibiram-se a fabricação de tecido e o contrabando. Em 1765 foi aprovado um decreto regulamentando a obrigação de abrigar e sustentar tropas inglesas em solo americano (prática que pesava muito sobre as finanças coloniais). Foram ainda criadas a Lei do Selo que acrescentou um imposto de selo sobre jornais, documentos legais e oficiais, etc. e os Atos de Townshend, que procuravam limitar e mesmo impedir que os americanos continuassem suas relações comerciais com outras regiões que não a Inglaterra.

Em 1773, o Parlamento inglês concedeu o monopólio do comércio do chá à Companhia das Índias Orientais, da qual muitas personalidades inglesas possuíam ações. Os comerciantes rebeldes estadunidenses que se sentiram prejudicados disfarçaram-se de índios peles-vermelhas, assaltaram os navios da companhia que estavam no porto de Boston e lançaram o carregamento de chá no mar (Festa do Chá de Boston). A Inglaterra reagiu de imediato com um conjunto de leis que os americanos chamaram de "Leis Intoleráveis" (1774): fechamento do porto de Boston; indenização à companhia prejudicada e o julgamento dos envolvidos, na Inglaterra.

As reações dos colonos foram, de início, exaltadas, mas pacíficas: exigiram o direito de eleger representantes para o Parlamento de Londres (para poderem discutir e votar as leis que lhes diziam respeito), passando depois a atos de boicote à s mercadorias inglesas. Esta guerra económica desencadearia motins e forçou o governo inglês a alguns recuos, que contudo não satisfizeram os colonos. O conflito agravou-se com a presença de tropas enviadas para conter os protestos. Como resposta, em 1774 os representantes das colônias estadounidenses, exceto Geórgia, enviaram seus delegados a Filadélfia, num primeiro Congresso Continental que, a partir daí, embora com divergências no seu seio, foi a voz política dos colonos. Em 1774, houve o 1º Congresso Continental de Filadélfia, onde se resolveu acabar com o comércio com a Inglaterra enquanto não se restabelecessem os direitos anteriores a 1763. O mesmo Congresso também redigiu e divulgou uma Declaração de Direitos. Houve logo depois, um 2º Congresso em que foi reunido em Filadélfia onde se decidiu a criação de um exército que seria comandado por George Washington, fazendeiro e chefe da milícia Virgínia. Nesse Congresso, apesar de se manterem leais ao rei, os colonos pediram a suspensão das "Leis Intoleráveis" e firmaram uma Declaração dos Direitos dos Colonos, no qual pediram a supressão das limitações ao comércio e à indústria, bem como dos impostos abusivos. O rei reagiu, pedindo aos colonos que se submetessem; estes, porém, não se curvaram diante da coroa inglesa. O extremar das posições levou à criação de milícias, à constituição de depósitos de munições e a um aumento contínuo de tensão que iria irromper em guerra.

Cronologia
Além dos conflitos políticos, iniciou-se um movimento contra a carga tributária exercida pelos ingleses sobre a produção de açúcar (Sugar Act), e sobre a produção gráfica (Stamp Act).

Além da cobrança excessiva de impostos, os ingleses em 1765 proibiram a abertura de estabelecimentos fabris nas colônias. Isto gerou uma onda de descontentamento dos colonizadores que para a América do Norte foram fazer fortuna. Iniciou-se então um sentimento de independência e de nacionalidade dos habitantes da região.

Os ingleses vendo que a economia da colônia mostrava sinais de enriquecimento e vigor, resolveram forçá-la para baixo com a adição de novos impostos e sobre-taxas de produção sobre a fabricação de tintas, vidro, papel e principalmente chá.

Em 1773, devido à alta dos impostos, ocorreu em Boston a revolta do chá. Samuel Adams e John Dickinson fundaram a Sociedade dos Filhos da Liberdade.

Na Filadélfia em 5 de Setembro de 1774, se reuniram os representantes das 13 colônias no chamado então primeiro congresso continental. Neste encontro foi redigida uma declaração de direitos e exigido o retorno à situação anterior.

O Parlamento britânico não aceitou as reivindicações da colônia, aumentando desta forma os atritos entre as treze colônias e o governo central, culminando com a eclosão da guerra em 1775 em Lexington e Concord.

Ainda em 1775 ocorreu o segundo congresso continental, simultaneamente houve a batalha de Ticonderoga, com a vitória dos anticolonialistas. Com o moral elevado dos combatentes houve a criação do exército continental.

Em 4 de Julho de 1776, representantes das 13 colónias reunidos em Congresso declararam a independência das 13 colônias inglesas do continente americano.

No dia 17 de Outubro de 1777, os norte-americanos venceram a batalha de Saratoga. Os franceses, poloneses, espanhóis e prussianos, países antagonistas da Inglaterra, vieram em auxílio aos rebeldes enviando soldados para ajudar na guerra da independência.

Em 1780, os ingleses foram derrotados na batalha naval de Chesapeake, em 19 de outubro de 1781, o exército inglês, sob o comando de Lord Cornwallis, rendeu-se em Yorktown.

Finalmente em 1783, em Paris, foi assinado o tratado em que os Estados Unidos representados por Benjamin Franklin, John Adams e John Jay tiveram sua independência reconhecida pela Grã-Bretanha.

1775 - Guerra da Independência dos Estados Unidos

Guerra da Independência dos Estados Unidos


A Guerra da Independência dos Estados Unidos da América, também conhecida como Guerra da Revolução Americana, constituiu-se de batalhas desfechadas contra o domínio inglês, durante a Revolução Americana de 1776. Movimento de ampla base popular, teve como principal motor a burguesia colonial e levou à independência das Treze Colônias - os Estados Unidos da América - (proclamada em 4 de Julho de 1776), o primeiro país a dotar-se de uma constituição política escrita.

As ações militares entre ingleses e os colonos americanos começam em março de 1775. No decorrer do conflito (Lexington, Concord e batalha de Bunker Hill), os representantes das colônias reuniram-se no segundo Congresso da Filadélfia (1775) e Thomas Jefferson, democrata de idéias avançadas, redigiu a Declaração de Independência dos Estados Unidos, promulgada em 4 de Julho de 1776, dando um passo irreversível. Procede à constituição de um exército, cujo comando é confiado ao fazendeiro George Washington.

Os ingleses, lutando a 5,5 mil quilômetros de casa, enfrentaram problemas de carência de provisões, comando desunido, comunicação lenta, população hostil e falta de experiência em combater táticas de guerrilha. A Aliança Francesa (1778) mudou a natureza da guerra, apesar de ter dado uma ajuda apenas modesta; a Inglaterra, a partir de então, passou a se concentrar nas disputas por territórios na Europa e nas Índias Ocidentais e Orientais.

Os colonos tinham força de vontade, mas interesses divergentes e falta de organização. Das colônias do Sul, só a Virgínia agia com decisão. Os canadenses permaneceram fiéis à Inglaterra. Os voluntários do exército, alistados por um ano, volta e meia abandonavam a luta para cuidar de seus afazeres. Os oficiais, geralmente estrangeiros, não estavam envolvidos no conflito.

O curso da guerra pode ser dividido em duas fases a partir de 1778. A primeira fase, ao norte, assistiu à captura de Nova York pelos ingleses (1776), além da campanha no vale do Hudson para isolar a Nova Inglaterra, que culminou na derrota em Saratoga (1777), e a captura da Filadélfia (1777) depois da vitória de Brandywine.

A segunda fase desviou as atenções britânicas para o sul, onde grande número de legalistas podiam ser recrutados. Filadélfia foi abandonada (1778) e Washington acampou em West Point a fim de ameaçar os quartéis-generais britânicos em Nova York. Após a captura de Charleston (1780) por Clinton, Cornwallis perseguiu em vão o exército do sul, sob a liderança de Green, antes de seu próprio exército, exaurido, render-se em Yorktown, Virgínia (outubro de 1781), terminando efetivamente com as hostilidades. A paz e a independência do novo país (constituído pelas treze colónias da costa atlântica) foi reconhecida pelo Tratado de Paris de 1783.

Apesar das freqüentes vitórias, os ingleses não destruíram os exércitos de Washington ou de Greene e não conseguiram quebrar a resistência norte-americana.

Mais tarde, em 1812 e 1815, ocorreu uma nova guerra entre os Estados Unidos e a Inglaterra. Essa guerra consolidou a independência norte-americana.

Conseqüências
Pela primeira vez na História da expansão europeia, uma colônia tornava-se independente por meio de um ato revolucionário. E fazia-o não só proclamando ao mundo, no documento histórico aprovado no 4 de Julho, o direito à independência e à livre escolha de cada povo e de cada pessoa ("o direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade" é definido como inalienável e de origem divina), mas ainda construindo uma federação de estados dotados de uma grande autonomia e aprovando uma constituição política (a primeira da História mundial) onde se consignavam os direitos individuais dos cidadãos, se definiam os limites dos poderes dos diversos estados e do governo federal, e se estabelecia um sistema de equilíbrio entre os poderes legislativo, judiciário e executivo de modo a impedir a supremacia de qualquer deles, além de outras disposições inovadoras. O sucesso norte-americano foi descrito como tendo influenciado a Revolução Francesa (1789) e as subseqüentes revoluções na Europa e América do Sul.

1756 - Guerra dos Sete Anos

Guerra dos Sete Anos

A Guerra de Sucessão da Áustria (1740-1748, Tratado de Aix-la-Chapelle) foi um conflito europeu causado pela Pragmática Sanção, segundo a qual o Imperador Carlos VI legou à filha, Maria Teresa da Áustria, o Sacro Império Romano. Do ponto de vista militar, destacaram-se as campanhas de Frederico II, o Grande e Maurício de Saxe.

A guerra, desencadeada após a morte do imperador Carlos VI (1740), foi motivada pela ambição da Prússia, da Baviera e da Espanha. Frederico II apoderou-se da Silésia (1740-1741), ao mesmo tempo em que os franco-bávaros ocupavam a Boêmia e a Alta Áustria. A Áustria, que garantira a aliança inglesa, cedeu a Silésia à Prússia (1742), concedendo, em seguida, a paz à Baviera, depois de derrotá-la (1745). A França invadiu as Flandres, garantindo o domínio dos Países Baixos pela vitória de Fontenoy, embora não tivesse conseguido conservar qualquer de suas conquistas no tratado de paz de Aix-la-Chapelle, que pôs fim ao conflito.

1733 - Guerra de Sucessão da Polônia

Guerra de Sucessão da Polônia

A Guerra da Sucessão da Polônia (1733-1738) foi um conflito que se estabeleceu entre a França, aliada da Espanha, e a Rússia. Com a morte de Augusto II, rei da Polônia, o imperador Carlos VI e a Rússia ameaçaram intervir pela força para garantir a eleição de Augusto III, enquanto Estanislau Leszczynski era proclamado rei da Polônia pela dieta de Varsóvia. Augusto III, apoiado pela Rússia e pelo imperador, expulsou seu rival.

O apoio da candidatura saxônica na Polônia (1733) levou Carlos VI a declarar guerra à França, a Sabóia e à Espanha. Intervindo, a França obteve as vitórias de Parma e Guastalla. Carlos, abandonado pelo poder marítimo, pelos seus aliados e apoiado tardiamente pela Rússia, acabou por ser derrotado. Fleury, partidário da paz, consentiu, pelo Tratado de Viena (1738), em reconhecer Augusto III como rei da Polônia. Estanislau recebeu como compensação os ducados de Lorena e de Bar.

1701 - Guerra da Sucessão Espanhola

Guerra da Sucessão Espanhola


A Guerra da Sucessão Espanhola disputou-se entre 1702 e 1713, pelo direito de sucessão da coroa espanhola, depois da morte do último monarca da casa de Habsburgo, Carlos II de Espanha. A guerra foi motivada pela morte precoce de José Fernando da Baviera, Príncipe das Astúrias, que levou à ascensão de Filipe V, neto do rei Luís XIV, ao trono da Espanha, que lhe fora legado pelo testamento de Carlos II (1700). Uma aliança anglo-alemã, entretanto, insurgiu-se para evitar a união dinástica de França e Espanha.

Nessa guerra, a França enfrentou ao mesmo tempo a Áustria, a Inglaterra e as Províncias Unidas. A luta caracterizou-se inicialmente por vitórias parciais francesas na Itália (1702) e na Alemanha (1703).

Depois, houve constante pressão sobre o território francês, especialmente na regiões do Flandres e Artois. Ali, tropas inglesas e holandesas, comandadas pelo duque de Marlborough, capturaram diversas praças fortificadas francesas, além de obterem importantes vitórias em campo aberto, como em Ramilles. Porém, uma das batalhas mais decisivas foi travada longe dali, em Blenheim (1704), na Baviera. Logo se seguiram reveses sérios: a invasão da Espanha pelo arquiduque Carlos (1707) e a derrota de Audenarde (Oudenarde), que abriu caminho para a invasão do norte da França, contida por Villars na batalha de Malplaquet (1709) e na vitória de Denain (1712). Embora a França tenha sofrido sucessivos revezes, a retirada prematura do exército britânico, devido a questões políticas internas, permitiu à França se levantar, batendo os austro-holandeses, comandados por Eugênio de Savóia, em Denain.

O partido dos Bourbons acabou por sair vencedor. Os tratados de Utrecht (1713), de Rastatt e de Baden (1714) puseram fim ao conflito. O primeiro desses tratados contribuiu fundamentalmente para o crescimento do poderio marítimo e colonial da Inglaterra.

Os desdobramentos do conflito para Portugal
A 30 de Abril de 1704, Filipe V de França declarou guerra a Portugal, iniciando-se uma etapa do conflito na península Ibérica.

A 7 de Novembro de 1712, Portugal assinou armistícios com a Espanha e com a França. Posteriormente, assinou o Tratado de Paz com a França (1° Tratado de Utrecht, 11 de Abril de 1713), obtendo a completa renúncia gaulesa à s possessões portuguesas na margem esquerda do rio Amazonas, no Estado do Brasil. O processo seria concluído com a assinatura do Tratado de Paz com a Espanha (2° Tratado de Utrecht, 6 de Fevereiro de 1715).

1685 - Revolução Gloriosa

Revolução Gloriosa

Pré-Condições para a Revolução Inglesa (considerando a de 1640 e a de 1688 como parte de um processo).

A Inglaterra atingiu no século XVII um notável desenvolvimento econômico, tendo sido a atuação da monarquia absolutista um elemento importante nesse processo. Henrique VIII e Elizabeth I unificaram o país, dominaram a nobreza, afastaram a ingerência do poder papal, criaram a igreja nacional inglesa (Igreja Anglicana), confiscaram as terras da Igreja Católica e passaram a disputar os domínios coloniais com os espanhóis de maneira eficaz. Depois de realizar essas tarefas tão ao gosto da burguesia, o poder absolutista tornou-se incômodo e desnecessário, pois passava a ser um obstáculo ao avanço da burguesia mercantil. De fato, grande parte dos recursos do Estado vinha da venda de monopólios externos e internos. Esses monopólios sobre o comércio exterior, o sal, o sabão, o alúmen, o arenque e a cerveja beneficiavam um pequeno grupo de capitalistas, a grande burguesia mercantil. Prejudicavam, porém, a burguesia comercial que não tinha a liberdade para seu comércio, e os artesãos, de modo geral, porque pagavam mais caro por gêneros básicos de alimentação e produtos indispensáveis a sua atividade. Ao mesmo tempo, a garantia dos privilégios das corporações de ofício impediam o aumento da produção industrial, pois limitavam a entrada de novos produtores nas áreas urbanas.

A Revolução Gloriosa , ocorrida em 1688, no século XVII (século que vai de 1601 até 1700), representou a segunda manifestação da crise do regime monárquico e absolutista (Antigo Regime) da época histórica que chamamos de Moderna (História Moderna). O poder monárquico, na Inglaterra, foi severamente limitado, cedendo a maior parte de suas prerrogativas ao Parlamento, e, como conseqüência, tendo sido instalado o regime parlamentarista inglês, que permanece até hoje. Esse processo teve início com a Revolução puritana de 1640 (a primeira manifestação de crise do regime monárquico absolutista inglês) e foi completado com a Revolução Gloriosa de 1688. Ambas, contudo, fazem parte do mesmo processo revolucionário, o que nos leva a optar pela denominação Revolução Inglesa do século XVII e não Revoluções Inglesas, como se fossem dois movimentos distintos. Na medida em que esse movimento revolucionário do século XVII criou as condições indispensáveis para a Revolução Industrial do século XVIII, limpando o terreno para o avanço do capitalismo, deve ser considerado a primeira revolução burguesa da história na Europa, antecipando em cento e cinqüenta anos a Revolução Francesa.

A Revolução Gloriosa foi uma revolução em grande parte não-violenta (por vezes é chamada de "Revolução sem sangue"), que teve lugar no Reino Unido entre 1685 e 1689, na qual o rei Jaime II de Inglaterra da dinastia Stuart (católico) foi removido do trono de Inglaterra, Escócia e País de Gales, e substituído pelo nobre holandês Guilherme, Príncipe de Orange em conjunto com sua mulher Maria II, filha de Jaime II (ambos protestantes).

Durante o seu reinado de 3 anos, o rei Jaime II tornou-se vítima da batalha política entre catolicismo e protestantismo, bem como entre os direitos divinos da coroa e os poderes políticos do parlamento.

O principal problema de Jaime foi ser católico, o que o alienava perante ambos os partidos do parlamento (os tories - conservadores e os whigs - liberais). Qualquer tentativa de reforma tentada por Jaime era vista como suspeita.

Jaime também se batia por algumas políticas consideradas indesejadas, como a criação de um exército permanente e a tolerância religiosa (desde Henrique VIII que os católicos foram discriminados). Enquanto que o seu irmão e predecessor, Carlos II de Inglaterra, tinha feito o mesmo, ele não tinha sido abertamente católico como Jaime.

A questão degradou-se em 1688 quando teve um filho (James Francis Edward Stuart, conhecido como "the old pretender"). Até ali, o trono teria passado para a sua filha protestante Maria. A perspectiva de uma dinastia católica tinha-se tornado agora real. Líderes do partido Tory, até aqui leais ao rei, uniram-se a membros da oposição Whig, e propuseram-se resolver a crise.

Foi lançada uma conspiração para depor Jaime e substituí-lo pela sua filha Maria e pelo seu marido Guilherme de Orange, ambos protestantes. Guilherme liderava a Holanda, então em guerra com a França: a guerra da grande aliança. Vendo a hipótese de adicionar a Inglaterra à sua aliança, Guilherme e Maria desembarcaram em Brixham, Devon, em 5 de Novembro de 1688 com um grande exército holandês.

Jaime perdeu os nervos. O seu exército, comandado pelo futuro duque de Marlborough, desertou, tendo Jaime fugido para Kent, onde foi capturado. A memória da execução de Carlos I ainda estava viva, pelo que lhe foi permitida a viagem para França.

Em 1689, reuniu-se a convenção do parlamento, que declarou que a fuga de Jaime equivaleu à abdicação. O trono foi oferecido a Guilherme e Maria, como governadores conjuntos, um arranjo que eles aceitaram. Guilherme de Orange foi então coroado Rei, com o título de Guilherme III.

Apesar de uma revolta em apoio de Jaime na Escócia, a primeira rebelião Jacobita, e na Irlanda, onde Jaime usou os sentimentos católicos locais para tentar recuperar o trono em 1689-1690, a revolução foi notavelmente pacífica. Pode ser vista mais como um golpe de estado do que como uma autêntica revolução. A Inglaterra permaneceu calma, a revolta nas Highlands escocesas foi domada, apesar da vitória Jacobita na batalha de Killiecrankie, e Jaime foi expulso da Irlanda no seguimento da batalha de Boyne.

A Revolução Gloriosa foi um dos eventos mais importante na longa evolução dos poderes em posse do parlamento e da coroa inglesa. Com a passagem no parlamento da Bill of Rights (declaração de direitos), foi tornado impossível qualquer retorno à monarquia por um católico, e acabou com as tentativas recentes para o absolutismo monárquico, nas ilhas britânicas, ao circunscrever os poderes do monarca.

O evento marcou a supremacia do parlamento sobre a coroa. Os novos monarcas devem a sua posição ao parlamento. O sucesso da Revolução Gloriosa veio 3 anos depois do falhanço da Rebelião Monmouth em destronar o rei.

1648 - Rebelião de Chmielnicki

Rebelião de Chmielnicki


Revolta de Chmielnicki (também Revolta de Khmelnytskyi ou Rebelião de Chmielnicki) é o nome de uma guerra civil na República das Duas Nações nos anos 1648–1654. Foi empreendida entre as forças leais à República e os Cossacos ucranianos comandados por Bohdan Chmielnicki. No final, a República não só perdeu parte de seu território para a Moscóvia, mas ficou enfraquecida, o que possibilitou a invasão pela Suécia: O Dilúvio.



Prelúdio para a Revolta
Durante séculos depois da criação da República, o povo ortodoxo da Rutênia sentia-se oprimido pela szlachta polonesa, padres católicos e comerciantes judeus. Embora a nobreza ruteniana gozasse de plenos direitos, eles rapidamente absorveram a cultura polonesa e se tornaram alienados das pessoas comuns; o advento da Contra-Reforma piorou o relacionamento entre as igrejas ortodoxas e católicas. Pouco dispostos a prestarem atenção a detalhes de sua administração, os magnatas poloneses freqüentemente faziam os comerciantes judeus de seus intermediários nas transações com os camponeses da Ucrânia. Os magnatas, para não terem muita preocupação com a tarefa de arrendamento de suas terras e coleta de impostos, vendiam ou alugavam esses privilégios aos judeus por um valor bruto, os judeus então ao exercerem essas funções acabaram tornando-se objetos de rancor para os oprimidos e resignados camponeses.

O papel de Chmielnicki

Apesar do ressentimento pessoal de Chmielnicki ter influenciado a sua decisão de libertar a Ucrânia dos poloneses, magnatas rutenianos e judeus, parece que sua ambição em tornar-se o governante da Ucrânia foi o principal motivo que o levou a instigar uma revolta do povo ruteniano contra eles, conhecida após ele como a Revolta de Chmielnicki.

Em poucos meses, quase todos os nobres poloneses, funcionários e padres tinham sido exterminados ou expulsos da Ucrânia. As perdas judias foram especialmente mais pesadas porque eles eram os mais numerosos e acessíveis representantes do regime da szlachta. Chmielnicki disse à s pessoas que os poloneses os tinham vendido como escravos e os entregue "nas mãos dos amaldiçoados judeus”. Com isso como justificativa para a revolta, os cossacos mataram um grande número de judeus durante os anos de 1648–1649. O número preciso de mortes nunca foi conhecido, mas a diminuição da população judia durante aquele período é estimada em um mínimo de 50.000 a 200.000: 300 comunidades judias foram totalmente destruídas. A população da República perdeu na Revolta cerca de um milhão de cidadãos. Em represália, muitos milhares de cossacos e camponeses que os apoiaram também foram mortos.

A Revolta
Estes eventos iniciaram uma série de campanhas (que coincidiram com o período na história polonesa conhecido como O Dilúvio, uma invasão sueca da República das Duas Nações) que temporariamente libertaram a Ucrânia do domínio polonês, mas em pouco tempo a sujeitou ao domínio russo. O sucesso das batalhas de Zhovti Vody, Batalha de Korsun e Batalha de Pilavtsi (respectivamente, em polonês: Żółte Wody, Korsuń e Piławce) contra o Hetman Mikołaj Potocki comandadas por Chmielnicki foram indenizadas pelo rei polonês e os cossacos ganharam numerosos privilégios com o Tratado de Zborov. Porém, quando as hostilidades recomeçaram, as forças de Chmielnicki foram traídas por seus antigos aliados, os Tártaros da Criméia, sofrendo uma grande derrota em 1651 na Batalha de Beresteczko e foram forçados em Bila Tserkva (Biała Cerkiew) a aceitar um tratado como perdedores. Um ano depois, os cossacos tiveram sua revanche na Batalha de Batoh.

As conseqüências
Enfraquecido pelas guerras, em 1654 Chmielnicki convenceu os cossacos a se aliarem ao tsar russo no Tratado de Pereyaslav que levou a incorporação da Ucrânia pela Moscóvia. Embora a República tentasse recuperar a influência sobre os cossacos até o final do século XVII (como por ocasião do Tratado de Hadiach de 1658), os novos assuntos cossacos se tornaram cada vez mais leais a Moscóvia. Com a República tornando-se cada vez mais fraca, os cossacos se tornaram cada vez mais integrados ao Império Russo, com sua autonomia sendo negociada a níveis privilegiados. Quando as partições da Polônia encerraram a existência da República das Duas Nações em 1795, muitos cossacos já tinham deixado a Ucrânia para colonizar a região do rio Kuban.

1648 - Fronda em França

Fronda em França

A Fronda, ou as Frondas, foi uma guerra civil ocorrida na França entre 1648 e 1653, pouco antes da Guerra Franco-Espanhola de 1653-9, e alguns anos após a Guerra dos Trinta Anos. Manifestação palpável da decomposição do Estado e da sociedade francesa, no seio de uma conjuntura econômica deprimida, e com graves problemas de organização política e coesão social sem solução tinha por objetivos iniciais limitar o poder real e discutir abusos.
Toda uma série de acontecimento, muitas vezes com grande violência, se sucederam de forma emaranhada e caótica durante o século XVII, no Estado francês. Delas participaram ativamente contra o poder central, representado pelo Cardeal Jules Mazarin, os parlamentares, os príncipes reais, a nobreza, algumas vezes unidos outras separados, contando sempre com a movimentação das classes humildes, desejosas de trocarem as circunstâncias sociais em que viviam.
Aspirações políticas coletivas, ambições pessoais, afã de protagonismo de figuras públicas, insatisfações estamentares, e desejo de dominar o governo da nação, se mesclaram e motivaram os protestos, agitações, revoltas e golpes de Estado, que se repetiram insistentemente durante esses anos conflituosos, enquanto que na outra parte, se produziam as idas e vindas de Mazarin e da família real, algumas vezes fugindo da verdadeira ameaça que mostravam os conjurados e agitadores, outras simplesmente utilizando seus movimentos como manobra de dissuasão, ou como tática política para produzir a desunião entre os frondistas.
Ao final de tudo isso, muito pouca coisa mudou realmente. Em um clima de cansaço generalizado, de esgotamento pelas lutas internas, de frustrações pelos objetivos não alcançados na prática, com maior ou menor entusiasmo dos distintos grupos políticos e setores sociais que haviam manifestado o seu descontentamento e protesto, foi admitida a volta ao poder do governo de Mazarin, e o triunfo do absolutismo que ele representava.
Nos últimos anos de seu mandato, o cardeal de origem italiana voltou a dominar a vida política francesa, sentindo-se mais forte do que nunca, e com capacidade de manobra que antes não havia tido, o que lhe permitiu continuar com seus planejamentos centralizadores, seguir aplicando a dura política financeira e impositiva, para a consecução de seus objetivos externos, e preparar adequadamente o futuro político da França em função da educação que estava sendo dada ao jovem rei, já próximo de ocupar o trono por decisão própria.

domingo, 29 de junho de 2008

1639 - Guerra Civil Inglesa (Oliver Cromwell)


Guerra Civil Inglesa (Oliver Cromwell)

A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) foi uma série de conflitos religiosos e políticos ocorridos especialmente na Alemanha, nos quais rivalidades entre católicos e protestantes, e assuntos constitucionais germânicos, foram gradualmente transformados em uma luta européia. Apesar de os conflitos religiosos serem a causa direta do conflito, ele envolveu um grande esforço político da Suécia e da França para procurar diminuir a força da dinastia dos Habsburgos, que governava a Áustria. A guerra causou sérios problemas econômicos e demográficos na Europa Central.
Atritos
Os conflitos religiosos ocorridos na Alemanha e solucionados em 25 de setembro de 1555 com a assinatura da Paz de Augsburgo inauguraram um período no qual cada príncipe podia impor sua crença aos habitantes de seus domínios. O equilíbrio manteve-se enquanto os credos predominantes restringiam-se à religião católica e luterana, mas o advento do calvinismo complicaria o cenário. Considerada uma força renovadora, a nova linha religiosa conquistou diversos soberanos. Os jesuítas e a Contra-Reforma, por outro lado, contribuíram para que o catolicismo recuperasse forças. Assim nasceu o projeto expansionista dos Habsburgos, idealizado por Fernando, duque de Estíria, que fora educado pelos jesuítas. O perigo ameaçava tanto as potências protestantes no Norte como a vizinha França.
À medida que o conflito se desenhava, a luta ia sendo influenciada por muitos outros temas colaterais, tais como as rivalidades e ambições dos príncipes alemães e a teimosia de alguns dirigentes europeus, sobretudo dos franceses e suecos, em abater o poderio do catolicíssimo Sacro Império Romano-Germânico, o instrumento político da família dos Habsburgos.
Esta conjuntura fora desencadeada na segunda metade do século XVI pelas fraquezas do Tratado de Augsburgo, um acordo concluído em 1555 entre o Sacro Império católico e a Alemanha luterana.


O imperador Rodolfo I


As tensões religiosas agravaram-se na Alemanha no decurso do reinado do Imperador Rodolfo II (1576-1612), período durante o qual foram destruídas muitas igrejas protestantes. As liberdades religiosas dos crentes protestantes foram limitadas, nomeadamente as relativas à liberdade de culto; os oficiais do governo lançaram as bases do Tratado de Augsburgo, que criou condições para o refortalecimento do poder católico. Com a fundação da União Evangélica em 1608, uma aliança defensiva protestante dos príncipes e das cidades alemãs, e a criação, no ano seguinte, da Liga Católica, uma organização semelhante mas dos católicos romanos, tornava-se inevitável o recurso à guerra para tentar resolver o conflito latente, o qual foi desencadeado pela secção da

Boêmia da União Evangélica.


Fernando II, rei da Boêmia.

Na Boêmia (atual República Checa), teve início uma disputa pela sucessão do trono, que envolveu católicos e protestantes. Fernando II de Habsburgo, com a ajuda de tropas e recursos financeiros da Espanha, dos germânicos católicos e do papa, conseguiu derrotar os protestantes da Boêmia. Os protestantes, que constituíam a maior parte da população, estavam indignados com a agressividade da hierarquia católica. Os protestantes exigiam de Fernando II, o rei da Boêmia, uma intercessão em seu favor. Todavia, as reivindicações foram totalmente ignoradas pelo rei, pois este era um fervoroso católico e um potencial herdeiro do poder imperial dos Habsburgos. Fernando II estabeleceu o catolicismo como único credo permitido na Boêmia e na Morávia. Os protestantes boêmios consideraram o ato de Fernando como uma violação da "Carta de Majestade". Isso provocou nos boêmios o desejo de independência.

A resposta da maioria protestante não se fez esperar: em 23 de Maio de 1618, descontentes com os católicos que destruíram um de seus templos, invadiram o palácio real em Praga e lançaram dois dos seus ministros pela janela, fato que ficou por isso conhecido como a "Defenestração de Praga" ou "violência de Praga", tendo despoletado a sublevação protestante. Assim começava a guerra, que abrangeu as revoltas holandesas depois de 1621 e concentrou-se em um confronto franco-Habsburgo após 1635.

Desenrolar da Guerra

Este conflito devastador, talvez um dos mais ferozes na História européia, pode dividir-se em quatro períodos distintos, caracterizados pelos soberanos que, sucessivamente, lutaram contra o imperador, sustentáculo dos católicos.

Período Palatino-Boêmio (1618-1624)

De início, as tropas protestantes, comandadas pelo conde Henrique Matias von Thurn, tiveram algum sucesso; assim, a rebelião alastrou-se a outras partes dos domínios do império. Durante algum tempo, a cidade católica de Viena, a capital dos Habsburgos, foi ameaçada (1619) pelas tropas da União Evangélica.
Nesse ano, a coroa de Fernando foi entregue a Frederico V, chefe da União Evangélica e eleitor (um dos governadores que elegiam o imperador germânico) do Palatinado (ou Pfalz, região renana da Alemanha). Algumas secções regionais desta União retiraram-se do conflito, pois Frederico era um calvinista, grupo com quem mantinham fortes divergências.

A facção católica tirou partido das discordâncias no seio da União Evangélica e Fernando, entretanto tornado Imperador em 28 de Agosto de 1619, assumiu o controlo da ofensiva católica.
Em 8 de Novembro de 1620, um exército da Liga Católica, liderado pelo germânico João T'Serklaes von Tilly rumou a Weisserberg, próximo de Praga, onde venceu os protestantes na Batalha da Montanha Branca . Após esta vitória, muitos rebeldes foram condenados a morte e todos perderam seus bens. A coroa da Boêmia, até então eletiva, tornou-se hereditária dos Habsburgos. O protestantismo foi proibido nos domínios imperiais e a língua checa substituída pela alemã.

A União Evangélica foi então desmobilizada, mas Frederico e alguns dos seus aliados continuaram a lutar no Palatinado. Derrotaram mesmo o exército de Tilly em Wiesloch, em 22 de Abril de 1622. Mas sem grandes conseqüências, porém, pois a partir de então somaram grandes derrotas. Em 1623, Fernando, com a ajuda da Espanha e da Baviera, conquista o Palatinado de Frederico V. No final de 1624, o Palatinado, entregue a Maximiliano I, duque da Baviera, era novamente um bastião católico. No entanto, as ambições germânicas de Fernando e sua aliança com a Espanha, fizeram com que se manifestasse a apreensão das nações protestantes da Europa e também da França.

Período Dinamarquês (1624-1629)

O imperador, orgulhoso de seu triunfo, pretendia obrigar os protestantes a devolver os bens eclesiásticos, que haviam sido secularizados. Os rebeldes pediram ajuda ao rei da Dinamarca e Noruega, Cristiano IV, protestante e príncipe do Império, pois possuia o ducado de Holstein (na atual Alemanha).
Na segunda fase da guerra, o conflito assumiu um carácter internacional numa altura em que os Estados germânicos protestantes buscavam ajuda no exterior contra os católicos. Países como a Inglaterra (anglicana) e a França (católica) estavam receosos do poder dos Habsburgos, mas estas duas nações, na altura aliadas contra a Espanha, não intervieram de imediato porque se debatiam com problemas internos. O único apoio surgiu do Norte, maioritariamente luterano.

Em 1625, Cristiano IV, rei da Dinamarca e Noruega, renovou a guerra contra os imperialistas católicos, como líder de uma coalizão contra os Habsburgos organizada pelos neerlandeses. Esta intervenção, porém, não assentava em motivações desinteressadas; os seus objetivos radicavam mais em ambições territoriais e na vontade de acabar com o domínio dos Habsburgos no ducado dinamarquês de Holstein (fronteira norte da Alemanha).
Este rei, apoiado pelo príncipes germânicos luteranos e calvinistas, mobilizou um grande exército em 1625 e invadiu a Saxônia (Norte da Alemanha), onde não encontrou uma resistência muito forte. Entretanto, Albrecht von Wallenstein, duque de Friedland, nobre checo riquíssimo e ambicioso, tinha formado um feroz exército repleto de mercenários, oferecendo-se a Fernando II, que apenas dispunha do exército de Tilly. O exército dos mercenários teve a sua primeira vitória em Dessau, na Alemanha, em Abril de 1626. Em Agosto desse mesmo ano, Tilly derrotou o exército dos protestantes em Lutter am Barenberg, na Alemanha, obrigando as forças de Cristiano a abandonarem seus aliados e retirarem-se, em 1627, para a península da Jutlândia (Dinamarca).
Depois, a 6 de Março de 1629, as forças imperiais somavam uma estrondosa vitória, com o Édito da Restituição, um documento que anulava todos os direitos protestantes à s propriedades católicas expropriadas a partir da Paz de Augsburgo. Em 22 de Maio de 1629, o rei Cristiano aceitou o Tratado de Lübeck, que o privava de mais alguns territórios germânicos. O imperador alcançou o auge de seu poder.

Período Sueco (1630-1635)

Na fase sueca, a seguinte, o cardeal e estadista francês, Richelieu, o implacável ministro de Luís XIII, pai de Luís XIV, estava pouco satisfeito com o sucesso dos Habsburgos. Richelieu decidiu intervir diretamente na Alemanha, mas, entretanto, aliciou o monarca sueco Gustavo II Adolfo, denominado "rei da neve", prometendo-lhe determinadas concessões.

Gustavo Adolfo era um luterano, que já tinha sido contactado pelos povos protestantes do Norte. Nestas circunstâncias, concordou em entrar no conflito pois perspectivava obter o apoio da França para poder concretizar as suas ambições hegemónicas no Báltico. Dotado de superiores qualidades militares, colocou-se a frente de um exército bem instruído na tática dos fogos, formado principalmente de camponeses suecos e pequeno número de mercenà rios. A disciplina era severa e a pilhagem era proibida.
No Verão de 1630, Gustavo Adolfo entrou na Pomerânia (Noroeste da Polônia), com o seu exército; enquanto isto, o exército de mercenários, agora comandado por Tilly, cercava Magdeburgo, uma cidade alemã pilhada e destruída em Maio de 1631.

Volvidos alguns meses, o exército de Tilly sofreu três derrotas; na última destas batalhas, travada em Breitenfeld, perto da atual cidade de Leipzig, em 17 de Setembro de 1631, Gustavo Adolfo teve a ajuda do exército saxão. Depois desta batalha de Breitenfeld, o exército sueco encaminhou-se para o Sul da Alemanha.

Fernando, confrontado com a derrota, chamou novamente Wallenstein para comandar as tropas imperiais. Este recrutou um novo exército de mercenários, e invadiu a Saxônia no Outono de 1632.

O exército sueco foi então no seu encalço, e em 16 de Novembro atacou os católicos em Lützen. Nesta batalha, travada também na Alemanha, Gustavo perdeu a vida, mas no seu final os seus inimigos, comandados por Wallenstein (que aceitara o comando das forças imperiais com a condição de ficar com poderes ilimitados), foram forçados a bater em retirada. Após a morte de Gustavo Adolfo, o chanceler sueco Oxenstierna financiou a Liga Heilbronn dos Protestantes Alemães (1633), que dissolveu-se após a derrota militar em Nördlingen, em 1634.
Bernhard, duque de Saxe-Weimar, que veio substituir no comando Gustavo, em Lützen, ultrapassou a Baviera depois desta vitória. Todavia, durante o ano de 1633, Wallenstein, por seu turno, conseguiu importantes vitórias contra os interesses suecos na Silésia (Sul da Polônia).

No final de 1633, Wallenstein deu início a um movimento de paz entre os círculos que lideravam as forças imperialistas. Todavia, foi retirado do seu posto de comando por Fernando, sob suspeita de cometer atos de traição, mas, mesmo assim, encetou conversações de paz com os líderes protestantes. As suas tentativas de pôr fim à guerra criaram-lhe inimigos entre os oficiais, que o terão assassinado em 25 de Fevereiro de 1634. Em 6 de Setembro desse ano, os exércitos imperiais ganharam uma importante batalha em Nördlingen, na Alemanha, que desmoralizou os protestantes e os levou a abandonar o conflito. A Paz de Praga, assinada em 30 de maio de 1635, que formalizou o fim da guerra civil dentro da Alemanha, trouxe algumas alterações favoráveis aos luteranos, nomeadamente mudanças elementares no Édito da Restituição. No mesmo ano a França entrou em guerra com os Habsburgo, juntamente com a Suécia e as Províncias Unidas.

Período Francês (1635-1648)

Esse período foi assim chamado porque Richelieu, após ter apoiado secretamente os adversários da casa de Áustria (Habsburgos), interveio diretamente contra ela, combatendo também a Espanha (aliada da Áustria). O absoluto ministro de Luís XIII, embora interessado no aniquilamento da Casa da Áustria, não pretendia intervir diretamente no conflito por ser o imperador austríaco defensor do catolicismo.
Os assuntos religiosos não eram então os mais importantes, neste novo período iniciado em 19 de Maio de 1635, com a declaração de guerra da França à Espanha, o outro grande domínio Habsburgo na Europa, além da Áustria e regiões dependentes na Europa Central. Desse jeito, o conflito foi ampliado para quase todo o continente.

A França, aliada da Suécia e de outros territórios e líderes protestantes, pôde ultrapassar algumas dificuldades iniciais. O general sueco Johan Banér, derrotou as forças conjuntas dos saxões e dos austríacos em Wittstock, em 4 de Outubro de 1636, desferindo um duro golpe na posição dos Habsburgos na Alemanha.
Em 1636, as invasões espanholas em território francês foram repelidas e a posição dos Habsburgos na Alemanha ficou ainda mais comprometida pela derrota infligida pelo duque Bernhard em Rheinfelden, em 2 de Março de 1638. Depois destes reveses, os exércitos imperiais viram-se forçados a baixar as armas. Entre 1642 e 1645, o general sueco Lennart Torstensson obteve diversos triunfos: bateu a Dinamarca, que se unira à s forças imperiais, e tomou largas porções territoriais da Alemanha e da Áustria.

No ocidente, a França, sob o comando do general Henri de La Tour d'Auvergne, visconde de Turenne (1611-1675), e Luís II, príncipe de Condé, também foi bem sucedida. Condé, por exemplo, derrotou um exército espanhol em Rocroi, na França, em 18 de Maio de 1643. Em Novembro seguinte, os franceses sofreram algumas derrotas em Tuttlingen, na Alemanha, mas a partir daí os Habsburgos só conseguiram ganhar algumas pequenas batalhas.
Os exércitos aliados de Condé e de Turenne bateriam um exército bávaro em Freiburg im Breisgau, em junho de 1644. Em 3 de Agosto do ano seguinte, os comandantes franceses voltaram a superiorizar-se a um outro exército Austro-Bávaro perto de Nördlingen.

Representantes do Império e da coligação contrária deram início à s negociações de paz em Münster e Osnabrück, na Alemanha, em 1645, que se revelaram infrutíferas. Contudo, depois da Baviera central ser invadida, Maximiliano I concluiu, em 14 de Março de 1647, as tréguas de Ulm com a Suécia e a Espanha. Apesar destes desastres, o imperador Fernando III recusou-se a capitular. Os confrontos prosseguiam na Alemanha, no Luxemburgo, nos Países Baixos, na Itália e na Espanha, ainda em 1647. No Outono desse ano, Maximiliano I reentrou na guerra do lado do Império, e mais uma vez o exército bávaro-austríaco foi derrotado em 17 de Maio de 1648 (Zumarshausen). Esta derrota, bem como os cercos sueco de Praga e franco-sueco de Munique, aliados à importante vitória francesa de 20 de Agosto em Lens, na França, obrigou Fernando, também confrontado com a ameaça de assalto a Viena, a concordar com os termos de paz impostos pelos vencedores desta Guerra dos Trinta Anos, consagrados no Tratado de Vastefália (Westfália).

O Papel da França

O papel da protagonista principal durante a Guerra dos Trinta Anos coube à França. No apogeu do conflito, o país chegou a contar com um exército de 100 mil homens e a firmar aliança com as Províncias Unidas, a Suécia, os príncipes alemães contrários à paz, a Confederação Helvética e alguns Estados italianos. Na organização estratégica de todos esses movimentos estava Armand Jean du Pleiss, o cardeal de Richelieu (1585-1642), descrito por seus contemporâneos como uma figura mais próxima à Coroa do que do papa.
O Fim do Conflito
A Paz de Vestfália foi negociada durante três anos pelos representantes dos cotólicos e protestantes, reunidos em Münster (onde tinha precendência a França católica) e em Osnabruck (onde tinha precedência a Suécia protestante). Os tratados concluídos nessas duas cidades da Westfália foram depois reunidos no Ato Geral de Vestfália em Münster em 24 de Outubro de 1648. A assinatura da paz ratificou as cláusulas do Tratado de Augsburgo de 25 de setembro de 1555, incluindo o calvinismo, garantindo a protestantes e católicos a liberdade de culto. Assim, o mapa religioso da Europa ficaria imóvel, uma vez que a eventual conversão dos soberanos não acarretaria mudanças religiosas nos respectivos domínios. Ao mesmo tempo, não só o equilíbrio de poderes no continente europeu se viu alterado - com a Espanha a ceder a posição dominante à França - como também certas fronteiras foram redefinidas.
A diplomacia e os exércitos franceses obrigaram os Habsburgos a se concentrar nos territórios austríacos e a se expandir em direção ao Império Turco, no Oriente. Na qualidade de árbitro do equilíbrio internacional, a França conseguiu alguns ganhos territoriais: tomou o Rossilhão à Espanha, tomou posse de toda a Lorena e de quase toda Alsácia e obteve o reconhecimento do bispado de Metz, Toul e Verdun (os "Três Bispados"). A Suécia ampliou seu controle sobre o Báltico e recebeu a Pomerânia ocidental alemã, além de importantes portos situados em rios alemães, dilatando assim seus domínios para fora da Escandinávia. O poder sueco seria recompensado com concessões feitas ao eleitor (príncipe ou bispo que participava da eleição do imperador) de Brandemburgo, dono das vias de acesso entre a Prússia e o Reno. Várias nações, entre as quais os Países Baixos e a Suíça, viram reconhecida a sua independência. A guerra franco-espanhola, no entanto, prosseguiu até o Tratado dos Pireneus, em 1659.
Conseqüências
Era o início da hegemonia e da soberba francesa na Europa e do declínio do poder dos Habsburgos. A Alemanha foi a única que saiu derrotada, arruinada e devastada desses trinta anos de guerra. Estimativas modernas estimam que a população da Alemanha caiu 20% durante a guerra; em algumas regiões esse declínio chegou a 50% pois vilas inteiras sumiram. Conseqüências de longo prazo da guerra foram, além da emergência da França como o poder terrestre dominante na Europa, a formação das Repúblicas da Holanda e Suíça e a contínua fragmentação da Alemanha, pois torna 350 Estados alemães quase que independentes do Imperador, atrasando a sua unificação em um único Estado.
Cronologia dos Principais Eventos

1618 a 1620: Foi derrotada uma revolta na Boêmia contra a regência da Áustria. Ainda assim, alguns príncipes protestantes continuaram a sua luta contra a Áustria;

1625 a 1627: A Dinamarca entra na guerra ao lado dos protestantes;

1630: O rei Gustavo Adolfo da Suécia intervém ao lado dos protestantes, invadindo o Norte da Alemanha;

1631: O comandante das forças católicas, Tilly, ataca Magdeburgo;

1632: Tilly foi derrotado em Breitenfeld e no rio Lech, tendo sido morto. O general alemão Wallenstein foi derrotado na batalha de Lützen, onde Gustavo Adolfo morreu;

1634: Quando os suecos foram derrotados em Nördlingen, Richelieu fez com que a França entrasse na guerra com o objetivo de infligir várias derrotas à Espanha, aliada da Áustria. Wallenstein é assassinado.

1648: A Paz de Vestefália deu a Alsácia-Lorena à França e algumas províncias bálticas à Suécia, tendo a autoridade imperial na Alemanha ficado a ser apenas nominal. Os exércitos mercenários de Wallenstein, Tilly e Mansfeld devastaram a Alemanha.

Principais Batalhas

  1. Batalha de Pilsen (1618)
  2. Batalha de Záblatí (1619)
  3. Batalha de Vestonice (1619)
  4. Batalha da Montanha Branca (1620)
  5. Batalha de Wiesloch (1622)
  6. Batalha de Wimpfen (1622)
  7. Batalha de Höchst (1622)
  8. Batalha de Fleurus (1622)
  9. Batalha de Stadtlohn (1623)
  10. Batalha da Ponte Dessau (1626)
  11. Batalha de Lutter am Barenberge (1626)
  12. Batalha de Stralsund (1628)
  13. Batalha de Wolgast (1628)
  14. Batalha de Frankfurt on the Oder (1631)
  15. Batalha de Magdeburgo (1631)
  16. Batalha de Werben (1631)
  17. Batalha de Breitenfeld (1631)
  18. Batalha de Rain (1632)
  19. Batalha de Fürth (1632)
  20. Batalha de Lützen (1632)
  21. Batalha de Oldendorf (1633)
  22. Batalha de Nördlingen (1634)
  23. Batalha de Wittstock (1636)
  24. Batalha de Rheinfelden (1638)
  25. Batalha de Breisach (1638)
  26. Batalha de Chemnitz (1639)
  27. Segunda Batalha de Breitenfeld (1642)
  28. Batalha de Rocroi (1643)
  29. Batalha de Tuttlingen (1643)
  30. Batalha de Freiburg (1644)
  31. Batalha de Jüterbog (1644)
  32. Batalha de Jankau (1645)
  33. Batalha de Mergentheim (1645)
  34. Segunda Batalha de Nördlingen (1645)
  35. Batalha de Zusmarshausen (1648)
  36. Batalha de Pragua (1648)
  37. Batalha de Lens (1648)
  38. Batalha de Arras (1654)
  39. Batalha de Valenciennes (1656)
  40. Batalha das Dunas (1658)


1585 - Guerra Anglo-Espanhola

Guerra Anglo-Espanhola

A Guerra Anglo-Espanhola (1585-1604 foi um conflito entre os reinos da Inglaterra comandada por Elizabeth I de Inglaterra e a Espanha comandada por Filipe II. A guerra começou mais propriamente com uma vitória inglesa em Cádiz em 1587 e contra a Armada Espanhola em 1588, mas os ingleses não fizeram novos avanços depois disso e a guerra permaneceu inconclusiva durante muito tempo.
Diversos confrontos entre Inglaterra e Espanha se seguiram durante os séulos XVII e XVIII.


Causas
As motivações de Filipe II eram tanto políticas quanto religiosas. Elizabeth I, que era protestante, opôs-se ao catolicismo tornando obrigatório o comparecimento ao serviço religioso da Igreja Anglicana.
A competição econômica entre os dois países estava tensa desde o momento sir John Hawkins iniciara a participação inglesa no tráfico de escravos em 1562, ganhando em seguida o apoio real. Os espanhóis consideraram as ações de Hawking como contrabando ilegal nas suas colônias das Índias Ocidentais, e afundaram vários navios de uma expedição negreira liderada por Hawkins e por sir Francis Drake em San Juan de Ulúa, perto de Veracruz, no México, em 1568. O ataque em San Juan de Ulúa foi o incidente diplomático que começou a alterar as relações anglo-espanholas, que até então estavam relativamente amigáveis. O episódio enfureceu Drake e Hawkins, levando-os assim como a outros navegadores ingleses a se tornar corsários como uma maneira de quebrar o monopólio espanhol no comércio no Oceano Atlântico. As atividades corsárias inglesas reduziram severamente o montante do Tesouro espanhol.


Deflagração
A guerra estourou em 1585. Drake navegou para as Indias Ocidentais e saqueou São Domingo, Cartagena das Índias, e San Agustín (na Florida). Irritado por estes ataques, Filipe II requisitou a planejar uma invasão à Inglaterra.
Em abril de 1587 Drake queimou 37 navios espanhóis no porto de Cádiz.
A Inglaterra se engajou na Guerra dos Oitenta Anos, apoiando a União das Províncias, liderada em revolta contra a Espanha por Guilherme I de Orange.
A execução de Maria I da Escócia em 1587, ultrajou os católicos na Europa continental e sua reivindicação ao trono inglês foi transferida para Filipe (que era viúvo de Maria I de Inglaterra). Em julho do mesmo ano, ele obteve a autorização do Papa Pio V para depôr Elizabeth. Em complemento a esta autorização, Pio V excomunhou a rainha.


Após o ataque da Armada
A formação da Armada Espanhola revolucionou a guerra naval e sua derrota providenciou uma valiosa experiência de navegação aos marinheiros ingleses. Além disso, a derrota do Armada permitiu a Inglaterra persistir em suas pilhagens contra a Espanha em alto-mar e a continuar enviando tropas para auxiliar os inimigos de Filipe II nos Países Baixos e na França.
Entretanto, a derrota do Armada espanhola não foi uma batalha decisiva. Uma armada inglesa sob o comando de Drake e de sir John Norris foi despachada em 1589 para enfrentar a Marinha Espanhola do Atlântico, que sobrevivera sem grandes danos a derrota da Armada e aportou em Santander e em São Sebastião(San Sebastian) no norte da Espanha. Além disso, a Armada Inglesa devia capturar a Frota do Tesouro Espanhol e expulsar os espanhóis de Portugal, que Filipe governava desde 1580. Como sua antecessora espanhola, a Armada Inglesa falhou em todos os seus objetivos e a força invasora foi repelida com pesadas baixas e perdas financeiras severas para o tesouro elizabetano.
A marinha espanhola pôde então se reagrupar e retool, e essa nova marinha era bem mais eficaz do que a frota pre-1588. Uma expedição anglo-holandesa saqueou Cádiz em 1596, mas a Espanha venceu a maioria dos outros confrontos navais e terrestres entre 1588 e o meio do século XVII.
Um sistema sofisticado de escolta e redes de inteligência melhoradas frustraram os ataques corsários a frotas do tesouro espanhol a partir da década de 1590. Exemplos da utilidade dessa reorganização espanhola são as derrotas das expedições bucaneiras de Martin Frobisher e John Hawkins no começo dessa década, assim como na captura do navio Revenge (Vingança), perto dos Açores. As permitiram aos espanhóis enviar três vezes mais ouro e prata na década de 1590 do que em toda a década anterior.
Drake e Hawkins morreram numa expedição desastrosa contra Porto Rico em 1595. Este foi um enfrentamento naval violento no qual os ingleses sofreu perdas raramente pesadas nos soldados e nos navios. Também em 1595, uma força espanhola comandada por dom Carlos de Amesquita desembarcou na Cornualha, no oeste da Inglaterra. Os soldados de Amesquita invadiram e queimaram Penzance e vilas vizinhas, saqueando suprimentos e voltando ao mar antes que pudessem ser confrontados.
A Inglaterra sofreu uma outra derrota no mar contra os Açores em 1597, e envolveu-se em uma guerra de guerrilha na Irlanda que durou quase uma década e na qual os irlandeses contavam com apoio espanhol.
A continuidade da guerra foi cada vez mais mal-sucedida para a Inglaterra, chegando a atrasar o estabelecimento de assentamentos ingleses na América do Norte perí­odo até que James I negociou a paz com Filipe III no tratado de Londres, 1604.
A Espanha permaneceu como a grande potência da Europa no século XVII até que as derrotas contra a França na Guerra dos Trinta Anos e a ascensão da supremacia naval holandesa (no meio do mesmo século) destruiram seu poder marítimo. Apesar da derrota da Armada não ter permitido a Inglaterra suplantar o poderio marítimo espanhol, ou agilizar a colonização americana, ela foi uma inspiração valiosa para os navegadores ingleses posteriores, particularmente nos combates navais anglo-franceses do século XVIII dos quais a Inglaterra emergiu finalmente como principal potência naval da Europa e nação colonizadora.

1568 - Guerra dos Oitenta Anos (Independência da Holanda)

Guerra dos Oitenta Anos (Independência da Holanda)

A Guerra dos 80 anos ou Revolta Holandesa de 1568 a 1648, foi a guerra de secessão na qual o território englobando aquilo que é hoje os Países Baixos se tornou um país independente frente à Espanha.
Durante esta guerra, a República Holandesa tornou-se uma potência mundial por um curto período histórico, com grande poder naval, e beneficiou de um crescimento económico, científico e cultural sem precedentes, no qual a comunidade Portuguesa desempenhou um papel de relevo (Ver: Sinagoga Portuguesa de Amsterdão).
Os Países Baixos pertenciam ao império espanhol, mas o Conselho de Regência de Filipe II rompeu com os nobres locais, que foram excluídos do governo. Altos impostos, desemprego e temores da perseguição católica contra os calvinistas criaram uma perigosa oposição, esmagada pelo duque de Alba em 1567 com um reino de terror e pesada tributação. Seguiu-se uma revolta liberal iniciada por Guilherme, o Taciturno, que evitou batalhas campais com as forças espanholas, explorando estrategicamente seu conhecimento da região, salvando cidades sitiadas como Leiden (1573-1574) e abrindo diques que inundaram a zona rural. O saque de Antuérpia (1576) levou a uma união temporária de todos os Países Baixos na pacificação de Ghent. Os excessos calvinistas logo levaram as províncias do sul a formarem a União de Arras (1579) e a fazer as pazes com a Espanha. As províncias do norte formaram a União de Utrecht e a guerra tornou-se uma luta religiosa pela independência. Guilherme defendeu-se com ajuda estrangeira, até ser assassinado em 1584, quando a liderança passou para Maurício de Nassau e o político Oldenbarneveldt. As Províncias Unidas salvaram-se pelo compromisso de guerra da Espanha com a França, Inglaterra e Turquia. Um armistício (1609) foi seguido pelo reconhecimento da plena independência no Tratado de Westfália (1648).


Antecedentes da Guerra

Nem todas as províncias neerlandesas decidiram separar-se da Espanha ao mesmo tempo. Algumas, sobretudo aquelas no que é hoje a Bélgica, nunca o fizeram.
Carlos V, Sacro Imperador Romano, nasceu em Ghent em 1500 e foi educado nos Países Baixos. Ele abdicou em 1556 a favor do seu filho Filipe II de Espanha, que estava sobretudo interessado no lado espanhol do Império.
O Calvinismo tinha-se tornado influente nos Países Baixos. Em 1566, muitos calvinistas atacaram igrejas para destruir estátuas e imagens de santos católicos (em neerlandês: 'beeldenstorm'), que eles consideravam heréticas.
Filipe II envia em reacção o Duque de Alba, que tinha a alcunha do Duque de Ferro, com o seu exército para os Países Baixos.


A Guerra

Em 1568 Guilherme I de Orange (Guilherme, o taciturno), governador das províncias da Holanda, Zelândia e Utrecht, tentou afastar o altamente impopular Duque de Alba de Bruxelas. Ele não viu nisto um acto de traição para com Filipe II, e esta perspectiva é reflectida naquilo que é hoje o Hino Nacional dos Países Baixos (o Wilhelmus), no qual as últimas linhas da primeira estrofe dizem: de koning van Spanje heb ik altijd geëerd (Sempre honrei o Rei de Espanha).
Guilherme recebeu pouco apoio e teve de fugir. Os seus co-conspiradores, o Conde de Egmont e o Conde de Horne, permaneceram e Alba mandou decapitá-los. Alba também introduziu um imposto não aprovado (em neerlandês: tiende penning).


Uniões de Atrecht e Utrecht

A 6 de Janeiro de 1579, estimulados pelo novo governador espanhol Alexander Farnese, Duque de Parma, os estados do sul (situados hoje na sua maioria na Bélgica), assinaram a União de Atrecht expressando a sua lealdade ao Rei espanhol. Nos 10 dez anos seguintes ele restabeleceria a religião católica na maior parte desta área.
A 23 de Janeiro de 1579, em resposta, Guilherme uniu os estados protestantes dos Países Baixos, Zeeland, Utrecht, Gueldria e a província de Groningen na União de Utrecht. Esta União levaria mais tarde (1581) à independência de Espanha, formando as Províncias Unidas da Holanda (também conhecidas como os Estados Gerais ou por vezes como a República Holandesa)


Assistência do Exterior

Em 1581, os espanhóis enviaram um exército para tentar recapturar as Províncias Unidas, com algum sucesso inicial, e a 10 de Julho de 1584, Guilherme foi assassinado. Com a guerra aberta a decorrer, as Províncias Unidas pediram ajuda à França e Inglaterra, tendo mesmo oferecido a monarquia dos Países Baixos em contrapartida, o que ambas as nações declinaram.
A Inglaterra já apoiava os holandeses não-oficialmente havia já anos, e decidiu agora intervir directamente. Em 1585, de acordo com o Tratado de Nonsuch, Elizabeth I enviou Robert Dudley, conde de Leicester, para prestar assistência, com entre cinco e seis mil e mil cavalos.
O filho de Guilherme, Maurício de Nassau, em breve contornou o conde e tomou conta dos exércitos em 1587, pelo que Leicester regressou à Inglaterra. A presença dos ingleses, que estavam para ficar até 1604, foi uma das razões que levariam ao envio da Armada Invencível contra a Inglaterra em 1588.
Sob o comando de Maurício, grande parte da área dos estados do sul revoltaram-se contra Espanha ou foram capturados pelas Províncias Unidas. A Espanha não conseguiu fazer frente aos custos financeiros do exército resultantes da perda da Armada e em 1595, com a declaração de Guerra contra a Espanha por Henrique IV de França, tornou-se financeiramente falida, o que não acontecia pela primeira vez.


As Tréguas
Sob pressão financeira e militar, em 1598, Filipe cedeu os Estados do Sul dos Países Baixos ao arquiduque da Áustria Alberto e sua mulher Isabel, na sequência do Tratado de Vervins com a França. Com isto, estava restaurado aproximadamente o território do Império da Borgonha.
Em 1604, após James I de Inglaterra se tornar rei de Inglaterra, ele concluiu a paz com a Espanha no Tratado de Londres de 1604.
1609 viu o início do cessar-fogo, chamado posteriormente de Trégua dos 12 anos, entre as Províncias Unidas e os Estados do Sul, mediado pela França e pela Inglaterra em Haia.


Retoma da Guerra
No seguimento da morte de Maurício em 1625, e na falta de uma paz permanente, o seu meio-irmão Frederick Henry retomou o conflito contra o sul.
Os espanhóis enviaram em 1639 uma armada com vinte mil militares para a Flandres, que foi derrotada pelo Almirante Maarten Tromp.


Paz
Em 1648, a Guerra terminou com o Tratado de Münster, que fez parte da Paz de Vestfália, que também terminou a Guerra dos 30 anos.

Outros Desdobramentos
A Guerra dos Oitenta Anos teve grande impacto sobre a evolução da Arte da Guerra. Maurício de Nassau logrou reunir um grupo seleto de estudiosos preocupados em criar um exército capaz de vencer os famosos e compactos terços espanhóis. Destes estudos surgiu uma infantaria organizada em unidades menores, de formação tática menos profunda e com maior capacidade de fogo. O grande teste deste novo sistema tático veio com a Batalha de Nieuwpoort, travada em 1600. O resultado deste trabalho serviu de inspiração para o rei sueco Gustavo Adolfo.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

1524 - Guerra dos Camponeses

Guerra dos Camponeses
A Guerra dos Camponeses (em Alemão, der Deutsche Bauernkrieg) de 1524-26 na Alemanha consistiu, tal como o Movimento Bundschuh precedente e as Guerras Hussíticas, de um conjunto de revoltas com causas económicas bem como religiosas por camponeses, pessoas da cidade e nobres. O movimento não possuiu aparentemente um programa comum.
O conflito, que teve lugar sobretudo em áreas no sul, centro e no oeste da Alemanha mas que também afectou áreas nas vizinhas Suíça e Áustria, envolveu no seu auge, no verão de 1525, cerca de 300.000 camponeses revoltados. Estimativas de então situaram o número de mortes em 100.000.
A guerra foi em parte uma expressão da revolta religiosa conhecida como a Reforma Protestante, na qual críticos dos privilégios e da alegada corrupção da Igreja Católica Romana contestaram a ordem religiosa e política estabelecida.
Mas também reflecte o profundo descontentamento social: o descontentamento com o poder dos nobres locais; o desejo de líderes das cidades pela liberdade do poder eclesiástico (Igreja) e dos líderes da nobreza; tensões dentro das cidades entre as massas e as elites urbanas e rivalidades entre a própria nobreza.
O movimento camponês acabou por ser derrotado uma vez que as cidades e os nobre fizeram a sua própria paz com os exércitos do imperador que restauraram a velha ordem, frequentemente de forma ainda mais dura sobre a soberania do Sacro-Imperador Romano Carlos V, representado nos assuntos alemães pelo seu irmão mais novo Fernando.
O dissidente religioso Martinho Lutero, já condenado como herético pelo Édito de Worms de 1521, e acusado neste tempo de fomentar a disputa, rejeitou as exigências dos insurgentes e sustentou o direito dos líderes alemães de suprimir as revoltas, mas o seu antigo discípulo Thomas Muentzer destacou-se como um agitador radical na Turíngia.
Os "profetas" de Zwickau e a Guerra dos Camponeses
Em 27 de Dezembro de 1521, três "profetas", influenciados por e que influenciaram Thomas Münzer, chegaram a Wittenberg desde Zwickau: Thomas Dreschel, Nicolas Storch e Mark Thomas Stübner. A reforma de Lutero não era suficientemente radical para eles. Tal como a Igreja Católica Romana, Lutero praticava o baptismo de crianças, aquilo o que os Anabaptistas consideravam como "não constar das escrituras nem primitivo, nem satisfazendo à s principais condições de admissão numa irmandade visível de santos, a saber: penitência, fé, iluminação espiritual e a livre submissão do indivíduo a Cristo".
O teólogo reformador e associado de Lutero, Filipe Melanchthon, sem poderes contra os entusiastas com que o seu co-reformador Andreas Karlstadt simpatizava, apelou a Lutero, ainda escondido no Castelo de Wartburg. Lutero foi cauteloso por forma a não condenar desde logo a nova doutrina mas aconselhou Melanchthon a tratá-los bem e testar os seus espíritos.
Houve confusão em Wittenberg, onde escolas e Universidade tomaram o lado dos "profetas" e foram fechadas. Daqui surgiu a acusação comum de que os Anabaptistas era inimigos da aprendizagem, o que é substancialmente refutado pelo facto de que a primeira tradução em alemão dos profetas hebreus ter sido feita e impressa por dois deles, Hetzer e Denck, em 1527. Os primeiros líderes do movimento em Zurique - Conrad Grebel, Felix Manz, George Blaurock, Balthasar Hubmaier - eram pessoas que dominavam o Grego, Latim e Hebreu.
A 6 de Março Lutero regressou, entrevistou os profetas, desdenhou os seus "espíritos", proibiu-lhes a estadia na cidade e ordenou aos seus seguidores que deixassem Zwickau e Erfurt. Acesso negado à s igrejas, estes últimos acabaram por celebrar os sacramentos a partir de casas privadas.
Expulsos de suas cidades, eles vaguearam pelo campo. Obrigado a deixar Zwickau, Müntzer visitou a Boémia, residiu dois anos em Alltstedt na Turíngia e, em 1524, passou algum tempo na Suíça. Durante este período ele proclamou as suas doutrinas revolucionárias na religião e na política com veemência e sucesso crescentes, sobretudo nas classes baixas.
Na sua origem uma revolta contra a opressão feudal, tornou-se debaixo da liderança de Müntzer, numa guerra contra todas as autoridades instituídas, e uma tentativa de estabelecer pela força o seu ideal de irmandade cristã, com a igualdade absoluta e o comunismo dos bens. A derrota total dos insurgentes em Frankenhausen (15 de Maio de 1525), seguida da execução de Müntzer e de vários dos seus líderes, foi apenas uma derrota provisória do movimento Anabaptista. Aqui e acolá na Alemanha, Suíça e na Holanda houve posteriormente vários propagandistas religiosos, cujas doutrinas seriam aceites por muitos, assim que um novo líder surgisse.

1455 - Guerra das Rosas

Guerra das Rosas
As guerras hussitas envolveram as acções militares contra e entre os seguidores de Jan Hus na Boémia do período de 1420 até cerca de 1434.

Origens
O movimento hussita assumiu um carácter revolucionário imediatamente depois de a notícia da morte de Hus (a 6 de Julho de 1415) ter chegado a Praga (Hus foi condenado à morte na fogueira pela igreja católica). Os cavaleiros e nobres da Boémia e da Morávia, descontentes com a Igreja Católica enviaram ao Concílio de Constança um protesto (2 de Setembro de 1415), conhecido como o "protestatio Bohemorum", o qual condenava a execução de Hus numa linguagem clara e forte. A palavras "protesto ou protestante" não possuiam ainda o mesmo significado histórico que se-lhes são modernamente atribuidos. A atitude de Sigismundo, rei dos romanos, que enviou cartas de ameaça aos Boémios declarando que ele trataria de afogar todos os seguidores de John Wyclif e Jan Hus, irritou fortemente a população.

O Conflito Armado
Os hussitas resistiram a uma série de cruzadas lançadas contra a Boêmia e tiveram fôlego suficiente para realizar incursões na direção da Polônia e da Alemanha. Seus principais chefes militares foram Jan Zizka (1360-1424) e Procópio, o Calvo (1380-1434). O fracasso hussita veio por conta de divisões internas, que cindiram o movimento entre taboritas, adamitas e calistinos. Estes últimos, mais moderados e ligados à burguesia, firmaram acordo com Sigismundo e a Igreja Católica.

1385 - Guerra Tokhtamysh-Tamerlão

Guerra Tokhtamysh-Tamerlão
A guerra Tokhtamysh-Tamerlão foi um conflito ocorrido nas décadas de 1380 e 1390 envolvendo Tokhtamysh, khan da Horda de Ouro, e o conquistador turco Tamerlão.

Antecedentes
Tamerlão havia ajudado Tokhtamysh a conseguir assumir o poder na Horda de Ouro. Primeiro derrotando Urus, o então khan da Horda Branca, e depois vencendo Mamai e promovendo a unificação das hordas azul e branca. Em 1382 promoveu uma grande campanha punitiva contra os principados russos, os quais vinham de uma vitória em Kulikovo dois anos antes. A Horda de Ouro, então decadente e o único estado sucessor do Império Mongol ainda existente no momento, passa por um breve ressurgimento. Porém a guerra contra Tamerlão pôs sua obra a perder.

A guerra
Tokhtamysh tinha pretensões territoriais na Pérsia, antigo território do Ilkhanato. Tal área também era visada por Tamerlão. Em 1385 Tokhtamysh fez um reide contra o Azerbaijão. A guerra entre os dois, até então aliados, se tornou inevitável. Entre 1389 e 1391 os dois lados entraram em guerra. Após algumas vitórias iniciais, Tokhtamysh é derrotado, mas em 1393 recupera sua posição, promovendo um novo ataque contra a província de Shirvan, então sob domínio timúrida. Tamerlão responde a ofensiva de Tokhtamysh, reconquistando para si a área. Depois disso promove uma expedição militar contra os territórios da Horda de Ouro, chegando até as proximidades de Moscou. No dia 15 de abril de 1395 ocorre a batalha do rio Terek, da qual Tamerlão vence e como resultado Tokhtamysh é deposto do trono da Horda de Ouro. Depois do regresso de Tamerlão à Pérsia, ele é reinstaurado com khan Kipchak e entre setembro de 1396 a outubro de 1397 promove guerras contra as colônias genovesas da Criméia. Porém em 1398 sua hegemonia é discutida por vários deles, dentre eles Temür Qutlügh, filho de Timur-malik, que o derrota e assume o trono da Horda de Ouro. Então Tokhtamysh pede ajuda ao duque lituano Vytautas, perdendo novamente na batalha do rio Vorskla, já em 1399.

1383 - Revolução de Avis

Revolução de Avis
A Crise de 1383-1385 foi um período de guerra civil e anarquia da História de Portugal, também conhecido como Interregno, uma vez que não existia rei no poder (embora houvesse uma rainha de direito em Beatriz de Portugal). A crise começou com a morte do rei Fernando de Portugal sem herdeiros masculinos e terminou com a ascensão ao trono de João, Grão-Mestre de Aviz em 1385, depois da batalha de Aljubarrota.
Prelúdio
Em 1383, o Rei Fernando de Portugal estava a morrer. Do seu casamento com Leonor Teles de Menezes, apenas uma rapariga, Beatriz de Portugal havia sobrevido à infância. O seu casamento era portanto da mais vital importância ao futuro do reino. As várias facções políticas discutiam entre si possíveis maridos, que incluíam príncipes ingleses e franceses. O casamento de D. Beatriz acabou por ser decidido como parte do tratado de paz de Salvaterra de Magos, que terminou a terceira guerra com Castela, em 1383. Pelas disposições deste tratado, o rei João I de Castela (Juan I, daqui em diante), casar-se-ia com D. Beatriz e o filho varão que nascesse desse casamento herdaria o reino de Portugal, se entretanto D. Fernando I morresse sem herdeiros. O casamento foi celebrado em Maio de 1383, mas não era uma solução aceite pela maioria dos portugueses, uma vez que implicava a união dinástica de Portugal e Castela e consequente perda de independência. Muitas personalidades quer da nobreza, quer da classe de mercadores e comerciantes estavam contra esta opção, mas não se encontravam unidos quanto à escolha alternativa. Dois candidatos emergiram, ambos meios irmãos bastardos do rei moribundo:
- João, filho do Rei Pedro I de Portugal e Inês de Castro, a viver no momento em Castela
- João, Grão-Mestre de Aviz, Outro bastardo de Pedro I (filho de Teresa Lourenço, aia de Inês de Castro), muito popular junto da classe média e aristocracia tradicional.
A 22 de Outubro, Fernando de Portugal morre. De acordo com o contrato de casamento de Beatriz e Juan I de Castela, a regência do reino é entregue a Leonor Teles de Menezes, agora rainha viúva. A partir de então, as hipóteses de resolver o conflito de forma diplomática esgotaram-se e a facção independentista tomou medidas mais drásticas, iniciando a Crise de 1383-1385.
1383-1384
O primeiro acto de hostilidades foi tomado pela facção do Mestre de Aviz em Dezembro de 1383. João de Aviz e um grupo de conspiradores entram em Lisboa e assassinam o Conde de Andeiro, amante e aliado político de Leonor Teles de Menezes, um dos principais orquestradores do casamento de Beatriz com o rei João I de Castela. Com esta iniciativa, João de Aviz torna-se no líder da facção separatista e chama para o seu lado Nuno Álvares Pereira, um líder militar com provas dadas. Juntos tomam as cidades de Lisboa, Beja, Portalegre, Estremoz e Évora. Como resposta, o rei Juan de Castela entra em Portugal e ocupa a estratégica cidade de Santarém, numa tentativa de normalizar a situação e assegurar o trono de sua mulher. A primeira vítima política é Leonor Teles de Menezes, que se provara uma regente pouco enérgica e incapaz de parar as conquistas da facção independentista. Juan I força a sogra a abdicar da regência e exila-a para um convento.
A resistência portuguesa e o exército castelhano encontram-se pela primeira vez a 6 de Abril de 1384, na batalha dos Atoleiros. Nuno Álvares Pereira soma uma mais vitória militar para a facção de Aviz, mas o confronto não é decisivo. Juan I de Castela retira para Lisboa e cerca a capital, com o auxílio da sua marinha que bloqueia o porto da cidade e controla o Tejo. O cerco era uma séria ameaça à causa de João de Aviz, uma vez que sem Lisboa, sem o seu comércio e dinheiro dele afluente, pouco podia ser feito contra Castela. Pelo seu lado, Juan I precisava de Lisboa não por razões financeira, mas por motivos de ordem política, uma vez que nem ele nem Beatriz haviam sido coroados e sem esta importante cerimónia, eram apenas pretendentes à coroa.
Entregando o comando militar ao seu fiel seguidor Álvares Pereira, João de Aviz procurou concentrar-se em ver a sua posição reconhecida além fronteiras. Em 1384 a Guerra dos cem anos encontrava-se no seu apogeu, com ingleses e franceses a lutarem pela coroa de França. O conflito depressa ultrapassou a questão dinástica inicial e influenciou, por exemplo, o cisma papal de Avinhão. Uma vez que Castela era aliada tradicional dos franceses, a opção lógica para Portugal seria pedir auxílio britânico. Em Maio de 1384, João envia uma embaixada ao rei Ricardo II de Inglaterra, um rapaz de dezassete anos, controlado pelo seu regente e tio, João de Gaunt, Duque de Lencastre. De início, o Duque mostrou-se reticente em aceder ao pedido de ajuda, mas por fim acordou em enviar tropas para Portugal. Uma vez que, por via da mulher Constança de Castela, era pretendente ao trono de Juan I, interessava-lhe que uma vitória de Portugal pudesse enfraquecer a sua posição. Sublinhas políticas à parte, a intervenção inglesa mostrou-se decisiva.
Entretanto, Lisboa encontrava-se a braços com o cerco de Castela, que começava a causar fome e privação. Bloqueada por terra e pelo rio, a cidade perdera as esperanças de ser libertada pelo exército de João de Aviz, demasiado pequeno para arriscar nesta fase um confronto directo com os castelhanos, e ocupado em controlar outras cidades. Foi feita uma tentativa de aliviar a pressão do cerco pelo rio. A 18 de Julho, uma esquadra comandada pelo capitão Rui Pereira rompe o bloqueio e consegue entregar um carregamento de comida em Lisboa. A operação foi um sucesso, mas o custo muito alto, visto que quase todos os barcos portugueses foram afundados e o próprio Rui Pereira faleceu nos combates. O cerco continuou, apesar deste pequeno sucesso português, e semanas depois a cidade de Almada rende-se a Castela. A situação parecia perdida para os lisboetas, quando a providência interveio a seu favor. O cerco estava também a ser complicado nas fileiras castelhanas, sem reforços à mão e também com problemas de abastecimentos, graças à s acções de Nuno Álvares Pereira na retaguarda. No fim do Verão uma epidemia de peste negra surgiu no exército castelhano, forçando Juan I a retirar para Castela a 3 de Setembro. Semanas depois, a frota castelhana abandona o Tejo e Lisboa podia respirar de alívio.
1385
Entre o fim de 1384, princípio de 1385, Nuno Álvares Pereira subjugou a maioria das cidades portuguesas que haviam declarado apoio à princesa Beatriz e ao marido Juan I de Castela. Durante a Páscoa, chegaram a Portugal as tropas inglesas enviadas em resposta ao pedido de ajuda feito por João de Aviz. Apesar de não serem um grande contigente, contavam-se à volta de 600 homens, eram tropas na sua maioria veteranas da Guerra dos cem anos, bem treinados nas tácticas de sucesso da infantaria inglesa. Entre o contingente inglês, encontrava-se uma divisão de archeiros, que haviam provado o seu valor contra cargas de cavalaria (ver batalha de Crecy, por exemplo).
Com tudo a jogar a seu favor, João de Aviz organizou uma reunião das Cortes em Coimbra, juntando todas as figuras importantes do reino. É aí que, a 6 de Abril, foi aclamado João I, Rei de Portugal, primeiro da Dinastia de Aviz, num claro acto de guerra contra as pretensões castelhanas. Num dos seus primeiros éditos reais, João I nomeia Nuno Álvares Pereira Condestável de Portugal e protector do reino. Pouco depois, rei e general partem para o Norte, para acabar com os últimos focos de apoio a Castela.
Em Castela, Juan I não hesita em responder ao desafio, enviando, pouco depois da aclamação de Coimbra, uma expedição punitiva a Portugal. O resultado é a batalha de Trancoso em Maio, onde as tropas de João I obtêm uma importante vitória. Com esta derrota, o rei de Castela percebe por fim que necessita de um enorme exército para pôr fim à quilo que considera uma rebelião. Na segunda semana de Junho, a maioria do exército de Castela, comandado pelo rei em pessoa, acompanhado por um contingente de cavalaria francesa, entra em Portugal pelo Norte. Desta vez, o poder dos números estava do lado de Castela: Juan I contava com cerca de 30000 homens, para os apenas 6000 à disposição de João I de Portugal. A coluna dirige-se imediatamente para Sul, na direção de Lisboa e Santarém, as principais cidades do reino.
Entretanto, João I e o Condestável encontravam-se perto de Tomar. Depois de alguma discussão, conclui-se que os castelhanos não podem levantar novo cerco a Lisboa, incapaz de resistir a nova provação. João I decide interceptar o inimigo nas imediações de Leiria, perto da vila de Aljubarrota. A 14 de Agosto, o exército castelhano, bastante lento dado o seu enorme contingente, encontra finalmente as tropas portuguesas, reforçadas com o destacamento inglês. O resultado deste encontro será a Batalha de Aljubarrota, travada ao estilo das batalhas de Crecy e Azincourt, onde a táctica usada permitia a pequenos exércitos resistir a grandes contingentes e cargas de cavalaria. O uso de archeiros nos flancos e de armadilhas para impedir a progressão dos cavalos, localizadas em frente à infantaria, constituem os principais elementos. O exército castelhano não foi só derrotado: foi totalmente aniquilado. As perdas da batalha de Aljubarrota foram de tal forma graves que impediram Juan I de Castela de tentar nova invasão nos anos seguintes.
Com esta vitória, João I foi reconhecido como rei de Portugal, pondo um fim ao interregno e à anarquia da Crise de 1383-1385. O reconhecimento de Castela chegaria apenas em 1411 com a assinatura do tratado de Ayton-Segovia. A aliança Luso-Inglesa seria renovada em 1386 no Tratado de Windsor e fortalecida com o casamento de João I com Filipa de Lencastre (filha de João de Gaunt). O tratado, ainda em vigor, estabeleceu um pacto de mútua ajuda entre Inglaterra e Portugal.
Cronologia
1383
Abril – A princesa Beatriz de Portugal (filha única do rei Fernando) casa com o rei Juan I de Castela.
22 de Outubro – O rei Fernando morre: a rainha viúva Leonor torna-se regente em nome de Beatriz e João de Castela
Começa a resistência, liderada por João, Grão-Mestre de Aviz: vários castelos são ocupados
1384
Janeiro – João I de Castela invade Portugal
Abril – Os portugueses ganham a batalha dos Atoleiros
Maio – Começa o cerco de Lisboa; é enviada uma embaixada a Inglaterra
Julho – Uma frota portuguesa rompe o cerco de Lisboa, embora com pesadas derrotas
3 de Setembro – João I de Castela, retira-se para o seu reinoInverno – Nuno Álvares Pereira e João de Aviz subjugam cidades a favor de Castela
1385
Páscoa – Chegada dos aliados ingleses
6 de Abril - João de Aviz é aclamado rei em Coimbra
Junho - João I de Castela invade Portugal com toda a força, depois da derrota de uma expedição punitiva na batalha de Trancoso
14 de Agosto – Batalha de Aljubarrota, vitória definitiva de Portugal, fim da Crise.